As grandes diferenças entre os pensamentos Ocidental e o Oriental

Os filósofos ocidentais vêem duas grandes diferenças entre o pensamento oriental e o seu. A seus olhos, o pensamento oriental se caracteriza por uma dupla recusa. De cara, recusa do sujeito; porque sob modalidades diversas, o hinduismo, o taoismo, o budismo negam o que para o ocidente constitui uma primeira evidência: o eu, cujas doutrinas  a ele se ligam para demonstrar o caráter ilusório. Para essas doutrinas, cada ser não é mais que um arranjo provisório de fenômenos biológicos e psíquicos sem elemento durável tal como um “si”: vã aparência, levada inevitavelmente a se dissolver.

A segunda recusa é aquela do discurso. Desde os Gregos, o Ocidente crê que o homem tem a faculdade de apreender o mundo utilizando a linguagem a serviço da razão: um discurso bem construído coincide com o real, ele atende e reflete a ordem das coisas. Ao  contrário, segundo a concepção oriental, todo discurso é irremediavelmente inadequado ao real. A natureza última do mundo, supondo que esta noção tenha sentido, nos assusta. Ela transcende nossas faculdades de reflexão e de expressão. Não podemos com isso conhecer nada e, então, nada dizer sobre isso.

A essas duas recusas, o Japão reage de maneira totalmente original. Ele certamente não atribui ao sujeito uma importância comparável àquela que lhe atribui o Ocidente; ele não o toma como ponto de partida obrigatório de qualquer reflexão, de qualquer empreendimento de reconstrução do mundo pelo pensamento. Poderíamos dizer mesmo que “Eu penso, logo existo” de Descartes é rigorosamente intradutível em japonês…

Mas não parece tampouco que, sobre esse assunto, o pensamento japonês o anula: no lugar de uma causa, ela o toma como um resultado. A filosofia ocidental do sujeito é centrífuga: tudo parte dele. A maneira pela qual o pensamento japonês concebe o sujeito aparece antes centrípeta. Assim como a sintaxe japonesa constrói as frases por determinações sucessivas indo do geral para o especial, o pensamento japonês coloca o sujeito em curso: ele resulta da maneira pela qual os grupos sociais e profissionais cada vez mais restritos se encaixam uns nos outros. O sujeito reencontra assim uma realidade, ele é como o último lugar onde se refletem seus pertencimentos.

Esta maneira de construir o sujeito por fora partilhada também pela linguagem, enclina-se a evitar o pronome pessoal, seja na estrutura social ou na “consciência de si” – em japonês, creio eu, jigaishi – se exprime no e pelo sentimento de cada um, torna-o o mais humilde, a participar de uma obra coletiva. Mesmo as ferramentas de origem chinesa, como a serra ou diferentes tipos de talhadeira, não foram adotadas no Japão há seis ou sete séculos senão com um emprego inverso: o artesão volta a ferramenta contra si, ao invés de empurrá-la adiante. Situar-se na chegada, não na partida, de uma ação exercida sobre a matéria revela uma mesma profunda tendência a se definir pelo exterior, em função do lugar que se ocupa em uma família, um grupo profissional, um meio geográfico determinados, e mais geralmente em um país e em uma sociedade. Diríamos que o Japão retornou, como recolocamos uma luva, a recusa de um sujeito para extrair desta negação um efeito positivo, encontrar nisso um princípio dinâmico de organização social que a coloca igualmente ao abrigo de uma renúncia metafísica das religiões orientais, da sociologia estática do confucionismo e do atomismo ao qual o primado do eu expõe as sociedades ocidentais.

A resposta japonesa à segunda recusa é de um gênero diferente. O Japão havia operado o completo retorno de um sistema de pensamento: colocado pelo Ocidente em presença de um outro sistema, ele retém o que lhe convém e separa o resto. Porque. longe de repudiar em bloco o logos tal como o entendiam os Gregos – isto é, a correspondência entre a verdade racional e o mundo – o Japão tomou firmemente o partido do conhecimento científico; ele ocupa mesmo no país o primeiro plano. Mas, tendo sido pego pela vertigem ideológica que o aprisionou durante a primeira metade do século [passado], retornou fiel a si mesmo, abominando as perversões dos logos aos quais o espírito do sistema engendra pelo acesso às sociedades ocidentais, e que exerce suas devastações em tantos países do terceiro mundo.

Lévi-Strauss, Claude [2011]. L’autre face de la Lune. Paris: Ed. du Seuil. pp. 50-53.

Antigua e Barbuda avançam rumo ao século XXI!

Hoje a Organização Mundial do Trabalho autorizou Antigua e Barbuda a não pagarem os direitos de autor aos EUA, no momento em que o país pretende lançar um portal de venda de filmes, cds e jogos.

El Gobierno de Antigua y Barbuda está planeando lanzar un sitio web de venta de películas, música y software, sin tener que pagar a los titulares de derechos de autor de Estados Unidos. La isla caribeña está dando un paso sin precedentes, ya que si Estados Unidos se niega a levantar el “bloqueo” comercial sobre empresas de servicios de apuestas y juegos de azar del país isleño, el gobierno de éste último pondrá en marcha el portal.” [1]

“Estos esfuerzos agresivos para cerrar la industria del juego remoto en Antigua ha resultado en la pérdida de miles de empleos bien remunerados y la incautación por parte de los estadounidenses de miles de millones de dólares pertenecientes a los operadores de juegos de azar y sus clientes en instituciones financieras en todo el mundo”, declaró Lowell . [2]

O portal especializado em Propriedade Intelectual assim resume a peleia:

Depois de anos de negociações frustradas entre as nações, a Organização Mundial do Comércio deu à Antigua e Barbuda o direito de impor sanções contra os EUA sobre o bloqueio aos jogos online” [3].

Digital Radio Mondiale in the 21st Century

For over two years a group of researchers have been investigating the possibility of providing the Brazilian government, radio producers and listeners with information about the social and technical possibilities that the DRM standard of digital radio can offer social communication.


A number of documents have been produced in Brazil during this period, published on the internet [1], [2], [3], [4], [5],  pointing to the imense technical advantages of the DRM standard. In short, DRM is an open standardised system, regulated by the ITU, which works in all frequencies and has the same audio codec that the Brazilian Digital TV system operates on, and thus optimises the spectrum. It works on low potency and consumes very little energy.
Developed to become a global standard of public interest, DRM is a favourite for educational and state broadcasters in various countries, and slowly winning new markets, which combine economic development with social development.

Such a profile should be enough to elect DRM to become standard for digital radio and adopted in Brazil as Índia e a Rússia have done.

And even more is possible!

Digital radio transmissions, as well as TV, are not limited to the traffic of audio or video signals, it can also send data, turning these platforms which use electromagnetic propagation and the Ionosphere, as a means of communication with a high capacity for flux of data: in the case of Digital TV we are speaking of bandwiths of up to 19MB/s, making the transmission of a feature film in high definition possible in just 25 minutes.

So what does all this information mean?

When we refer to the internet‘s free services such as Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., we tend to forget that this communication and access, of utmost importance in our post-industrial daily life, is dependent on an infrastructure that is out of the control of its users, in the same way that optical fibres guarantee, with some security, that surgerys can be realized remotely, DNS address which is still centralized within very few countries.

With Digital Radio Mondiale, not only can you broadcast high quality audio within our own continent and others, we can also send files, making new services possible that radically change established concepts of the analogic era, since the audio-visual can also be broadcast via digital radio, such as Diveemo, broadcasting video footage via radio.


If you have read this post up to here and have had a look at the links, you can imagine why the communication monopolys are working against DRM becoming the Brazilian standard of Digital Radio. Instead of DRM, many communications executives prefer the HD radio standard, which is property of Ibiquity, and although aproved by the ITU, its audio codec is like ablack-box”, an industrial secret owned by Ibiquity, which does not operate well on AM, doesnt read shortwaves and doesn’t operate well on low potency, it consumes a lot more energy than its competitor DRM and does not optimise the use of the spectrum. As a strategy to delegitimize DRM, recent dubious statements have proliferated, including from members of the brazilian government, such as Genildo Lins’s claim  thatos testes com rádio digital não foram bons (recent digital radio tests were not good). The Government’s Electronic Communications Secretary is infact referring to the standard that maintains high-potency broadcasters, HD. On the other hand, DRM works well in high-potency, and attends to low-potency. It is the only standard that works on all the frequency bands.

The proposal of deferring a decision about digital radio’s standard, is a stratedy to migrate AM radios (in reality, AM and medium wave broadcasters) to VHF, which will see an end to AM bands, since HD radio has had a poor performance on the AM bandwith.


If HD doesn’t work for AM, it will be terminated, that is what the commercial broadcasters are proposing!

Paralel to choosing the standard, research has taken place in a broadening of the possibilities for communication in the spectrum, such as the FHSS tecnique, and  an awareness of the Espectro Livre (Free Spectrum).

Legally, it’s worth noting the recent government initiatives in Argentina and Equador have sustained in their constitutions, and promoted the divison of the spectrum into three, in view to ensure complementary private, public and state broadcasting. If succesful, this policy could greatly expand citizen access not only to the consumption of plural content, but enable people’s free and diverse expression through the Free Spectrum.

We hope this article will serve as a reference to Brazilian and South American citizens, as well as the whole world, to take part in defining the technology standard for digital radio that will vigor in our global society for decades to come. Our interest is to promote public debate in favour of public interest, and to challenge private interests that time again try to underestimate what is best for everyone.

We count on you in this fight!

Thiago Novaes is a Communications researcher, member of Radio Mudamuda.radiolivre.organd consultant to http://www.drm-brasil.org/.

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

“A tarefa da radiodifusão, como tudo, não se esgota ao transmitir informações. Além disso, tem que organizar a maneira de pedir informações, isto é, converter os informes dos governantes em resposta às perguntas dos governados. A radiodifusão tem que tornar possível o intercâmbio. Apenas ela pode organizar, em conjunto, as falas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo, os debates sobre altas de preço do pão, as disputas municipais. Se consideram que isso é utópico, eu lhes peço que reflitam sobre o porquê de ser utópico.
Mas, seja o que for que o rádio trate de fazer, seu empenho deverá consistir em fazer frente àquela inconseqüência em que incorrem, tão ridiculamente, quase todas as instituições públicas.”
Teoria do Rádio, Bertold Brecht

Faz mais de dois anos, um grupo de pesquisadores vem desenvolvendo pesquisa com o objetivo de subsidiar o governo brasileiro, radiodifusores e ouvintes sobre as possibilidades sócio-técnicas que o padrão DRM de rádio digital pode oferecer para a comunicação social. Vários documentos foram produzidos neste período, todos publicados na Internet [1], [2], [3], [4], [5],  apontando para a imensa superioridade técnica do DRM. Trata-se, resumidamente (DRM para imprensa), de um padrão aberto, regulamentado pela ITU, que funciona em todas as faixas de frequência, que possui o mesmo codec de áudio do Sistema Brasileiro de TV Digital, otimiza o uso do espectro, funciona em baixas potências e consome muito menos energia. Pensado para ser um padrão global de interesse público, o DRM é o favorito de emissoras educativas e estatais de vários países, e aos poucos vai conquistando novos mercados, combinando desenvolvimento econômico ao social.

Essas características bastariam para eleger o DRM o padrão de rádio digital a ser adotado no país, como já o fizeram a Índia e a Rússia.

Porém, muito mais ainda é possível!

As transmissões digitais de rádio, assim como de tv, não se limitam ao transporte de sinais de áudio ou vídeo, mas se voltam mesmo para emissão de dados, fazendo das plataformas digitais que se utilizam da propagação eletromagnética terrestre e também Ionoférica, meios de comunicação de alta capacidade de fluxo de dados: no caso da TV Digital, estamos falando transmissões de taxas até 19MB/s, ou seja, capazes de viabilizar a transmissão de um filme duas horas de alta-definição em aproximadamente 25 minutos.

Mas o que esses dados querem dizer?

Quando se fala em Internet, serviços gratuitos como Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., geralmente se esquece que toda esta comunicação e acesso tão importantes ao cotidiano das sociedades pós-industriais, tudo isso depende de uma infra-estrutura que está fora do controle dos usuários, tais como as fibras óticas que garantem, com segurança, que cirurgias sejam realizadas à distância, ou como o endereçamento DNS, ainda concentrado em poucos países e grupos.

Com o Rádio Digital Mundial, pode-se não apenas transmitir áudios com qualidade de cd para o nosso e outros continentes, mas também arquivos, disponibilizando novos serviços, modificando radicalmente conceitos estabelecidos na era analógica, já que mesmo o audiovisual pode também ser transmitido via rádio digital, como no caso do serviço Diveemo, que consiste da transmissão de vídeo via rádio. Se você leu este post até aqui e deu uma passeada pelos links, já pode imaginar, então, porque os monopólios da comunicação estão trabalhando para evitar ao máximo que o padrão DRM seja o escolhido pelo governo brasuca.

Ao invés do DRM, muitos empresários da comunicação preferem o padrão HD Rádio, propriedade da Ibiquity, padrão este que apesar de ter sido aprovado pela ITU, tem seu codec de áudio como uma “caixa-preta”, é segredo industrial da Ibiquity, funciona mal na faixa do AM, não atende às Ondas Curtas, não funciona bem em baixas potências, consome muito mais energia que seu concorrente DRM, além de não otimizar o uso do espectro. Como estratégia para deslegitimar o DRM, proliferaram recentemente declarações dúbias, inclusive de membros do governo, realizando uma espécie de trocadilho, como a afirmação de Genildo Lins, de que “os testes com rádio digital não foram bons“. O secretário de comunicação eletrônica do governo se refere, na verdade, apenas ao padrão que mantém os mesmos emissores de alta-potência, o HD, já que o DRM, além de funcionar em alta-potência, atende às baixas-potências, sendo o único padrão que funciona em todas as faixas de freqüências.

A proposta de adiamento da decisão sobre o padrão de rádio digital vem acompanhada de uma estratégia de se realizar a migração das rádios AM (na verdade, das emissoras AM em Ondas Médias) para o VHF, acabando com a faixa AM, visto que o HD Rádio teve desempenho insatisfatório na faixa do AM. Se o HD não funciona para as AM, acabemos com o AM, propõem as emissoras comerciais!

Paralelas à escolha do padrão, pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de se aumentarem as possibilidades de comunicação utilizando o espectro, como proposto pela técnica FHSS, ou atentas à necessidade de Espectro Livre, como descreveu David Weinberg, autor também de “O Mito da Interferêcia no Espectro de Rádio“.

Juridicamente, vale à pena lembrar das recentes iniciativas dos governos da Argentina e Equador que, amparados em suas Constituições, promoveram a divisão do espectro em três, visando assegurar a complementariedade dos serviços privado, públicos e estatal de radiodifusão. Se bem sucedida, esta política poderia ampliar enormemente o acesso do cidadão não apenas ao consumo plural de conteúdo, mas viabilizar a livre e diversa expressão das pessoas, através do Espectro Livre, sintonizando as possibilidade digitais com o Art XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificado no Art 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica e presente na Carta Magna brasileira, em seu Art 5o.

Esperamos que este breve artigo sirva de referência para que cidadãos e cidadãs do Brasil, da América Latina e do mundo passem a tomar parte na definição do padrão tecnológico de rádio digital que vigorará em nossas sociedades nas próximas décadas. Nosso interesse não é mais que promover o debate público, em defesa do interesse público, mas a força dos interesses privados parece novamente tentar se sobrepor ao que é melhor para todxs. Contamos com você nesta luta!

Thiago Novaes é Pesquisador em Telecomunicações, membro do Coletivo Rádio Muda – muda.radiolivre.org – e  consultor do http://www.drm-brasil.org/.

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

“A tarefa da radiodifusão, como tudo, não se esgota ao transmitir informações. Além disso, tem que organizar a maneira de pedir informações, isto é, converter os informes dos governantes em resposta às perguntas dos governados. A radiodifusão tem que tornar possível o intercâmbio. Apenas ela pode organizar, em conjunto, as falas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo, os debates sobre altas de preço do pão, as disputas municipais. Se consideram que isso é utópico, eu lhes peço que reflitam sobre o porquê de ser utópico.
Mas, seja o que for que o rádio trate de fazer, seu empenho deverá consistir em fazer frente àquela inconseqüência em que incorrem, tão ridiculamente, quase todas as instituições públicas.”
Teoria do Rádio, Bertold Brecht

Faz mais de dois anos, um grupo de pesquisadores vem desenvolvendo pesquisa com o objetivo de subsidiar o governo brasileiro, radiodifusores e ouvintes sobre as possibilidades sócio-técnicas que o padrão DRM de rádio digital pode oferecer para a comunicação social. Vários documentos foram produzidos neste período, todos publicados na Internet [1], [2], [3], [4], [5],  apontando para a imensa superioridade técnica do DRM. Trata-se, resumidamente (DRM para imprensa), de um padrão aberto, regulamentado pela ITU, que funciona em todas as faixas de frequência, que possui o mesmo codec de áudio do Sistema Brasileiro de TV Digital, otimiza o uso do espectro, funciona em baixas potências e consome muito menos energia. Pensado para ser um padrão global de interesse público, o DRM é o favorito de emissoras educativas e estatais de vários países, e aos poucos vai conquistando novos mercados, combinando desenvolvimento econômico ao social.

Essas características bastariam para eleger o DRM o padrão de rádio digital a ser adotado no país, como já o fizeram a Índia e a Rússia.

Porém, muito mais ainda é possível!

As transmissões digitais de rádio, assim como de tv, não se limitam ao transporte de sinais de áudio ou vídeo, mas se voltam mesmo para emissão de dados, fazendo das plataformas digitais que se utilizam da propagação eletromagnética terrestre e também Ionoférica, meios de comunicação de alta capacidade de fluxo de dados: no caso da TV Digital, estamos falando transmissões de taxas até 19MB/s, ou seja, capazes de viabilizar a transmissão de um filme duas horas de alta-definição em aproximadamente 25 minutos.

Mas o que esses dados querem dizer?

Quando se fala em Internet, serviços gratuitos como Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., geralmente se esquece que toda esta comunicação e acesso tão importantes ao cotidiano das sociedades pós-industriais, tudo isso depende de uma infra-estrutura que está fora do controle dos usuários, tais como as fibras óticas que garantem, com segurança, que cirurgias sejam realizadas à distância, ou como o endereçamento DNS, ainda concentrado em poucos países e grupos.

Com o Rádio Digital Mundial, pode-se não apenas transmitir áudios com qualidade de cd para o nosso e outros continentes, mas também arquivos, disponibilizando novos serviços, modificando radicalmente conceitos estabelecidos na era analógica, já que mesmo o audiovisual pode também ser transmitido via rádio digital, como no caso do serviço Diveemo, que consiste da transmissão de vídeo via rádio. Se você leu este post até aqui e deu uma passeada pelos links, já pode imaginar, então, porque os monopólios da comunicação estão trabalhando para evitar ao máximo que o padrão DRM seja o escolhido pelo governo brasuca.

Ao invés do DRM, muitos empresários da comunicação preferem o padrão HD Rádio, propriedade da Ibiquity, padrão este que apesar de ter sido aprovado pela ITU, tem seu codec de áudio como uma “caixa-preta”, é segredo industrial da Ibiquity, funciona mal na faixa do AM, não atende às Ondas Curtas, não funciona bem em baixas potências, consome muito mais energia que seu concorrente DRM, além de não otimizar o uso do espectro. Como estratégia para deslegitimar o DRM, proliferaram recentemente declarações dúbias, inclusive de membros do governo, realizando uma espécie de trocadilho, como a afirmação de Genildo Lins, de que “os testes com rádio digital não foram bons“. O secretário de comunicação eletrônica do governo se refere, na verdade, apenas ao padrão que mantém os mesmos emissores de alta-potência, o HD, já que o DRM, além de funcionar em alta-potência, atende às baixas-potências, sendo o único padrão que funciona em todas as faixas de freqüências.

A proposta de adiamento da decisão sobre o padrão de rádio digital vem acompanhada de uma estratégia de se realizar a migração das rádios AM (na verdade, das emissoras AM em Ondas Médias) para o VHF, acabando com a faixa AM, visto que o HD Rádio teve desempenho insatisfatório na faixa do AM. Se o HD não funciona para as AM, acabemos com o AM, propõem as emissoras comerciais!

Paralelas à escolha do padrão, pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de se aumentarem as possibilidades de comunicação utilizando o espectro, como proposto pela técnica FHSS, ou atentas à necessidade de Espectro Livre, como descreveu David Weinberg, autor também de “O Mito da Interferêcia no Espectro de Rádio“.

Juridicamente, vale à pena lembrar das recentes iniciativas dos governos da Argentina e Equador que, amparados em suas Constituições, promoveram a divisão do espectro em três, visando assegurar a complementariedade dos serviços privado, públicos e estatal de radiodifusão. Se bem sucedida, esta política poderia ampliar enormemente o acesso do cidadão não apenas ao consumo plural de conteúdo, mas viabilizar a livre e diversa expressão das pessoas, através do Espectro Livre, sintonizando as possibilidade digitais com o Art XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificado no Art 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica e presente na Carta Magna brasileira, em seu Art 5o.

Esperamos que este breve artigo sirva de referência para que cidadãos e cidadãs do Brasil, da América Latina e do mundo passem a tomar parte na definição do padrão tecnológico de rádio digital que vigorará em nossas sociedades nas próximas décadas. Nosso interesse não é mais que promover o debate público, em defesa do interesse público, mas a força dos interesses privados parece novamente tentar se sobrepor ao que é melhor para todxs. Contamos com você nesta luta!