Category Archives: teoria antropológica

A Natureza Desnaturada

E hoje achei o Manifesto of Urban Cannibalism, escrito por Wietske Maas e Matteo Pasquinelli, e mal comecei a ler, já me veio a ideia desta nota, pois que resumem tudo nas primeiras linhas…
“We should never abandon the city in favour of a virgin territory. There is no innocent state of nature to defend: cities are flourishing ecosystems in themselves, a true ‘human participation in nature’. In fact, nature builds no idea of nature. The image of nature has always been an artifact of human civilisation, a mark of its stage of evolution. Yet we remain unaware that this image is still the projection of our animal instincts and fears on the surrounding environment.”


Uma notícia recente também me chamou a atenção, sobre a tentativa de criar espermatozóide humano com células-tronco, onde a palavra mágica que justifica tudo é a infertilidade.

Anonimozegratuitos em terras Argentinas

post humanism O tema das técnicas de reprodução assistida ainda é pouco conhecido, mesmo em uma capital onde os procedimentos técnicos da moderna biomedicina são tidos como os mais avançados. Ao propor a existência de um problema ético envolvendo a fabricação de filhos, não são apenas as transformações sobre a concepção natural do parentesco que ganham lugar, mas a possibilidade de descrever os desejos e necessidades que antes não existiam, mas hoje são compartilhados socialmente e viabilizados com altos investimentos financeiros. Se outrora as técnicas auxiliavam casais inférteis a realizarem seu sonho, hoje convive-se com a formação de famílias homossexuais, que rompem com um certo modelo natural, destacando-se ainda um outro modelo, que se impõe com a procriação monoparental, como no caso das mães solteiras que recorrem aos Bancos de Sêmen: ao projetar sua gravidez independente, muitas vezes se anseia por configurar sua cria mais perfeitamente, escolhendo cor de olhos e cabelo, podendo-se inclusive realizar o Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, capaz de localizar aberrações cromossômicas e excluir os embriões dotados de genes conhecidamente causadores de doenças, como câncer de mama e ovário.

Na Argentina, onde existe uma filial do maior Banco de Sêmen do mundo, o CryoBank, faz pouco mais de um ano e meio, aprovaram uma lei que considera a infertilidade uma doença, (Ley 14208) devendo estar prevista em planos de saúde, onde ressalto os seguintes aspectos: ao considerar apenas os casos de infertilidade, a lei permite apenas a doação homóloga de sêmen, para concepção de um filho biológico de um casal heterossexual. Aprovada a lei, seguiu-se sua regulamentação –  o Decreto 2980 -, que estabelece o perfil da paciente, possuindo entre 30 e 40 anos, dando-se prioridade às mulheres que não tenham tido filhos em sua atual relação (ao que parece, supõe-se sempre apenas o interesse de um casal heterossexual).

post humanism A barriga de aluguel, ou a gestação solidária não estão previstas nas leis argentinas, mas um projeto apresentado em agosto de 2011 na Câmara dos Deputados visa legalizar a situação sob algumas normativas.

Uma das Clínicas mais conhecidas de Buenos Aires dedica um texto sobre “tratamiento” às madres solteras, amparando-se nas leis vigentes:

“Cada vez es mayor el número de mujeres solas que, por distintos motivos, eligen esta opción para ver realizado su deseo de ser madres.
En nuestro país, la anterior Ley 35/1988 ya permitía estos tratamientos a toda mujer indicando en su Exposición de Motivos que “…desde el respeto a los derechos de la mujer a fundar su propia familia en los términos que establecen los acuerdos y pactos internacionales garantes de la igualdad de la mujer, la Ley debe eliminar cualquier límite que socave su voluntad de procrear y constituir la forma de familia que considere libre y responsablemente”.
En el artículo 6 de la vigente Ley 14/2006 sobre Técnicas de Reproducción Humana Asistida se indica que: “Toda mujer mayor de 18 años y con plena capacidad de obrar podrá ser receptora o usuaria de las técnicas reguladas en esta Ley, siempre que haya prestado su consentimiento escrito a su utilización de manera libre, consciente y expresa.
La mujer podrá ser usuaria o receptora de las técnicas reguladas en esta Ley con independencia de su estado civil y orientación sexual.”

Embora tudo se passe de forma a assegurar direitos, ao promover a seleccion fenotipica, a seleccion genetica, não se trata de curar a infertilidade, mas de promover um acoplamento humano-máquina que torna indistinto campos antes bem delimitados como cultura e tecnologia. O direito de personalidade consta entre os fundamentos constitucionais de inúmeros países, mas se converte em letra morta face ao desenvolvimento das TRA junto ao modelo tecnocientífico capitalista. Por fim, um novo mercado de produtos humanos se estabelece sob a justificativa da infertilidade, por vezes apresentando o argumento da melhoria da saúde, mas ainda evitando enfrentar a ruptura ontológica que permeia o trabalho técnico sobre o surgimento de novos seres, desprovidos de nome paterno, ou conhecimento sobre sua origem genética.

Em 6 de julho último, a província de Santa Fé aprovou “uma sanción para la ley de infertilidad“, considerando-a uma enfermidade e prevendo seu atendimento como servico de saúde.

Em um artigo publicado na Internet, em agosto de 2012, cujo título é “Donacion de Semen: el padre, un debate pendiente“, trata-se do aumento do uso das técnicas de reprodução assistida no Ocidente, onde proliferam sem qualquer limite legal.

“Sólo en España, el número de mujeres que acuden a un centro en busca de esperma de donante se quintumplicó. En Argentina, si bien no hay datos que alumbren el fenómeno, las clínicas coinciden en un mismo diagnóstico. Las consultas por espermodonación crecieron del 10% al 30% en apenas cinco años, y cada vez más mujeres solas y parejas lesbianas recurren a esta opción. “

post humanism

projeto de lei na argentina
art mexico 2011
lei na col^mbia (1998)

Post Humanism

Donación de esperma

Que progresso?

O tema que proporia hoje, para compor um campo de discussão fundamental para a introdução à Antropologia, é discutir a noção de Progresso, dividido em três abordagens: sobre o progresso da história, a evolução do corpo e o progresso da ciência. E a pergunta é: o que é progresso?

O progresso está entre os pilares do pensamento das sociedades pós-industrais, impondo acelerações incríveis sobre as transformações na maneira de viver e conceber a vida em suas mais distintas formas. Tomando como referência o relativismo cultural, sugiro um debate em torno dos conceitos de raça e cultura, apresentando o conceito de etnocentrismo, como em Lévi-Strauss  [1]. Preparando terreno para estudos sobre a corporalidade e mesmo o aprendizado técnico [2], acredito que seria interessante relacionar As Técnicas Corporais, de Marcel Mauss, um segundo clássico. Por fim, um livro de Latour para discutir a ideia de progresso da ciência, compondo com a crítica de lévi-strauss e a possibilidade de técnica na magia [3] relações de reflexão que introduzam o pesquisador ao pensamento antropológico ao mesmo tempo em que lhe apontem distintos caminhos dentro da disciplina.

LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História.
http://pt.scribd.com/doc/31225878/Levy-Strauss-Raca-e-Historia
MAUSS, Marcel , As Técnicas Corporais.
http://www.4shared.com/document/XOBrNpWW/Livro_-_Antropologia_II_-_As_T.html
LATOUR, B. Reflexão sobre o Culto Moderno dos Deuses Fe(i)tiches.
http://pt.scribd.com/doc/15482125/reflexaosobreocultomodernodosdeusesfeitichesbruno-latour

SIMONDON, G. Les limites du progrès humain. 1959.

Limitações técnicas e estética: novas mídias e baixa resolução

Faz algumas semanas que trocamos emails entre listas de discussão com o assunto “Abrindo o Código Fechado”, tendo como orientador do debate a comparação entre a produção audiovisual utilizando software livre e software proprietário. Qual não foi minha surpresa ao receber hoje a mensagem da fabs, retomando a discussão que propusemos, apontando evidentemente para direções distintas das rotas e imaginários traçados pelo mercado, apresentando um artigo e um vídeo em uma tela pequena como contribuição ao debate “Estética e Baixa-Resolução”.

Abaixo segue a apresentação do texto assinado por Marcelo B. Conter, que ilustra seu post com o referido vídeo.

Essa discussão me é muito cara, pois fico intrigado com todas as tecnologias de “alta definição” que são vendidas como tais para os consumidores, embora na maior parte do tempo lidamos com hardwares e softwares de baixa definição: os celulares, mp3 players e suas microtelas; os vídeos do YouTube; a maior parte da programação da TV aberta; as câmeras de vídeo de nossas máquinas fotográficas amadoras e câmeras de celular; o formato mp3; câmeras de vigilância; e assim por diante.

Como era de se esperar essa “limitação” técnica acaba por gerar uma estética nova, e artistas acabam por se apropriar dela.”

Leia o artigo clicando aqui.

O tema da “limitação” versus “estética” foi o centro do argumento que pretendi defender junto à French Philosopherassertativa: o software livre é mais evoluído que o software proprietário porque está constantemente aberto à inovações da cultura. Ao contrário do software autômato, privado, parece tecnicamente mais adaptado às necessidades humanas aquele objeto técnico mais aberto, onde já foi possível desenvolver o conhecimento de maneira a compor com a intuição o verdadeiro arranjo humano-máquina não alienado. A esse respeito, não posso evitar a referência à obra de Gilbert Simondon, MEOT 1958, e especialmente o artigo “Os limites do progresso humano”, de 1959, em que o filósofo das técnicas afirma:

  • O problema do progresso humano não pode ser colocado sem fazer intervir o sistema completo da atividade e da existência constituída pelo que o homem produz e pelo que o homem é. Considerar o que o homem produz (linguagem técnica) não pode permitir estimar o progresso humano nem prever sua lei de desenvolvimento em função do tempo, porque a atenção é então unicamente dirigida para uma concretização objetiva da atividade humana
  • Para que o progresso técnico possa ser considerado como progresso humano é preciso que implique uma reciprocidade entre o homem e as concretizações objetivas” (…) “O progresso técnico seria muito mais profundamente um progresso  humano se já fosse um progresso todo das técnicas, compreendida a agricultura, que é por excelência, e em todos os sentidos do termo, a parente pobre.”
  • “Esse progresso seria muito mais lento em cada ponto e muito mais profundo em sua totalidade, logo, muito mais progresso. Transformando todas as condições da vida humana, aumentando a troca de causalidade entre o que o homem produz e o que ele é, o verdadeiro progress0 técnico poderia ser considerado como o que implica um progresso humano se tiver uma estrutura em rede, estando as malhas dessa rede na realidade humana.”
  • “A reflexividade do pensamento é a forma consciente da ressonância interna do conjunto formado pelo homem e a concretização objetiva, e esse pensamento que assegura a continuidade entre as fases sucessivas de progresso, e é apenas ela que pode manter a preocupação com a totalidade, e fazer assim com que o descentramento do homem, paralelo à alienação da concretização objetiva, não se efetue. Hoje em dia o pensamento reflexivo deve particularmente se prender a guiar a atividade técnica do homem em relação aos homens, porque é nesse domínio que existe o maior perigo de alienação, e onde se encontra a ausência de estrutura impedindo o progresso técnico de ser exercido na concretização objetiva sendo parte integrante do progresso humano, que forma sistema com o homem. A questão dos limites do progresso humano não pode ser colocada sem a dos limites do pensamento, porque é ele que aparece como o principal depositário do potencial evolutivo da espécie humana.” (Simondon 1959)
Renato Fabbri
Ver perfil Traduzir para Português (Brasil)
Mais opções 31 ago, 13:51

Voltando à discussão mais reta.

Temos algumas opções interessantes provenientes
de discussões diversas a respeito. Abaixo escreverei
duas delas.

1) Uma delas é entrar em contato com a FSF e ver se
não topam subsidiar os advogados e as pessoas
envolvidas para entrar na justiça pedindo a abertura dos
códigos.

2) Outra é usar croudfunding para comprar algo como um adobe after
effects ou um vegas. O Blender foi aberto desta forma, não?

Em 25 de agosto de 2011 23:28, Daniel Prado <dtpr@gmail.com> escreveu:

> só um comentário rápido…

> muito das polêmicas que pareceram se devem ao fato de que eu ousei comparar
> a eficiência dos livres com os proprietários. Se eu tivesse listado todas as
> melhorias desejadas sem comparar talvez não tivesse tanto ruído…

> mas tb talvez não tivesse tanto engajamento na thread 😉

> Em 25 de agosto de 2011 19:42, Leo germani <leogerm@gmail.com>escreveu:

>> nossa.. tá rolando um cross post sem dó né?

>> Mas ó, de tudo q foi falado, alguns comentários

>> 1. Moviola era a tecnologia mais avançada no tempo de Eisensten

>> 2. Não li história do Tom Jobim, mas me parece que ele não tinha opção. Um
>> continente o separava do equipamento que ele _gostaria_ de usar, enquanto a
>> galera aqui tem os softwares proprietários todos a mão. Ele não fez uma
>> opção, nem política, nem estética – ele se virou com o que tinha e foi
>> genial.

>> 3. o mesmo vale pros nigerianos (que começaram com VHS, não sei como estão
>> hoje)

>> 4. mercado não é o oposto de produção artística/autoral. As coisas estão
>> juntas e misturadas.

>> 5. Quem não tá na prática diária, produzindo, experimentando pra valer,
>> tem que ser mais humilde na hora de cagar regras

>> 6. Comentei em outro email o problema das patentes de software nessa área
>> e ninguém. Esse é um problema muito sério e que tem que ser combatido. Nessa
>> área, especificamente, eu boto fé que muita gente que poderia investir não
>> investe pq tem medo de tomar processo na cabeça

>> Leo,,

>> 2011/8/25 Philipe Ribeiro <ribeiro.phil@gmail.com>

>>> Nunca consegui ter a mesma eficiência que tenho no Cinelerra usando
>>> qualquer um desses… Você sabe se algum desses (ou qualquer outro) tá
>>> redondo em HD? Só preciso capturar em alta, montar com corte seco e
>>> renderizar usando um codec similar ao h264… se algum desses fizer isso,
>>> mesmo que eu demore mais na edição, vai estar melhor que o nosso querido
>>> Cinelerra…

>>> Obs: uso juntaDados =)

>>> Em 25 de agosto de 2011 16:22, Marcelo Soares Souza <
>>> marc@juntadados.org> escreveu:

>>>>   E você já experimentou o Kdenlive, OpenShot, PiTiVi?

>>>> Em 25 de agosto de 2011 16:19, Philipe Ribeiro <
>>>> ribeiro.phil@gmail.com> escreveu:

>>>>> Alta resolução não é sin6onimo de cinema, mas hoje se você pega trampos
>>>>> pro cinema os caras vão querer que sejam finalizados em alta e creio se faz
>>>>> necessário correr atrás para que o Cinelerra comece a ficar redondo em alta
>>>>> antes que entre em desuso, infelizmente.

>>>> —
>>>> Abraços
>>>> Marcelo Soares Souza
>>>> http://marcelo.juntadados.org

>>>  —
>>> Essa mensagem foi postada no grupo:
>>> http://groups.google.com/group/gtculturadigital?hl=pt?hl=pt-BR

>>> Esse grupo está ligado ao Movimento Cultura Digital:
>>> http://culturadigital.br/movimento

Enquanto o imaginário político se volta para as limitações econômicas como se atreladas ao que de mais evoluído tecnicamente já foi produzido, inúmeras comunidades de desenvolvedores de software livre continuam abertas e propondo novas formas de produzir, licenciar e distribuir software.

Brazilian Maestro Como exemplo da relação “estética x progre$$o tecnológico”, citei a tese dos professores da Unicamp, Marcos Nobre e José Roberto Zan, de que a criação da ruptura estética da bossa nova está intimamente ligada à limitação técnica de uso das mesas de som com poucos canais, sobretudo na composição do maestro Tom Jobim, ocasionando aquilo que ficou conhecido com a simplicidade de dimdomdindin.

  • PROFISSIONAL Jobim se via antes de mais nada como um profissional da música, uma novidade no panorama da música brasileira de então. E vê nos festivais um evento pernicioso para a profissão: “Acontece que a noite no Rio desapareceu. Antigamente, os músicos tinham emprego. Agora, não. Só tem os festivais“.
  • “A perspectiva do profissional permeia todas as entrevistas e depoimentos. E acaba por ressaltar elementos que podiam e ainda podem passar por laterais e secundários. Exatamente porque não se pensa Tom Jobim como o “profissional da música” que queria ser. Em uma das inúmeras vezes em que é confrontado com as “acusações” de plagiar compositores ou de ser pouco “brasileiro”, o profissional orgulhoso do seu ofício responde apontando para a partitura de Chopin em cima do piano: “Olha aqui: o negócio de você fazer um acorde menor e aumentar ou diminuir a quinta é mais velho do que o mundo. O ‘Prelúdio nº 4’, de Chopin, está aí em cima do piano para provar que Tom Jobim não é original, Baden Powell não é original, mas somos todos originais porque estamos na restinga da Marambaia e o ritmo é samba. E o meu negócio é samba, está entendendo?“.
  • DEPOIMENTO Daí a importância do extenso depoimento do Museu da Imagem e do Som do Rio, em 1967. Depoimento coletivo, mas claramente centrado em Jobim, do qual participaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Ricardo Cravo Albin, Oscar Niemeyer, Dori Caymmi e Raimundo Wanderley. Quando, para ganhar a vida, Tom se integrou ao meio da música popular no início dos anos 1950, além de atuar como músico da noite, passou a trabalhar em gravações na Continental Discos como arranjador e regente de orquestras. Naqueles anos, novas tecnologias desenvolvidas no pós-Guerra estavam revolucionando a indústria fonográfica; entre elas, o acetato, o multicanais, a estereofonia e o hi-fi (alta fidelidade). Jobim lembra que no período pré-bossa nova ainda se gravava em 78 rpm, e reconhece, um tanto melancolicamente, o “nível precário” das condições de gravação no Brasil, o que teria levado a “uma série de problemas na música”. Em muitos outros campos, como o cinema ou as artes plásticas no Brasil -basta pensar no cinema novo, por exemplo-, saltos de qualidade estética também estiveram intimamente ligados à exploração criativa das condições precárias de produção. O que mostra que, para entender a canção, é preciso mais do que música e letra. É preciso entender o país. E as condições concretas em que a canção foi e é produzida.”
  • “Como resume Jobim no depoimento de 1967, em função da precariedade dos nossos estúdios foi feita uma certa “triagem, necessidade de se trabalhar com menos instrumentos […] Os americanos estão gravando com oito canais -é possível que com oito canais você possa gravar a escola de samba mesmo como ela é. Porque se você pegar a escola de samba e colocar dentro do estúdio pra gravar, soa como um mar em tempestade […]. É por isso que a bossa nova -ela teve raízes seríssimas no samba- teve aquela necessidade de limpar um pouco”

A canção e a vaiaA morte da canção e o imortal Tom Jobim

JOSÉ ROBERTO ZAN
MARCOS NOBRE

  • Em 1930, Almirante levou para o estúdio de gravação, pela primeira vez, tamborins, cuícas, surdos, pandeiros e reco-recos. Com isso, colocou a nova concepção de arranjo rítmico da música popular brasileira em compasso com os novos meios elétricos de gravação disponíveis. Mais tarde, já sob o Estado Novo, Radamés Gnatalli vestiu o samba de casaca, com arranjos orquestrais sofisticados que pretendiam nos colocar em sintonia com o glamour hollywoodiano. Essas tentativas de colocar a música popular brasileira em compasso com os meios tecnológicos de produção disponíveis deram um salto inventivo no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial. Nos dois primeiros anos do governo Dutra, a farra de importações que queimaram todas as reservas internacionais acumuladas no período anterior trouxe discos com um jazz muito mais sofisticado e complexo. Como conseguir estar à altura dessas novas formas de produção musical com as limitações técnicas de nossos estúdios de gravação?
  • A resposta de Tom Jobim foi a de uma simplificação genial. Nas palavras dele: “A harmonia, de uma maneira geral, simplificou-se. Simplificou-se e enriqueceu-se. Muitas notas foram tiradas dos acordes: tirou-se as quintas que já soavam no harmônico do baixo etc. Por causa da precariedade das gravações de nossos estúdios. A gente tinha vontade de que se ouvissem as vozes que a gente queria que fossem ouvidas (…). Não adiantava aquela massa amorfa de cem violinos. Então veio aquela economia total: uma flautinha, quatro violinos tocando em uníssono, na maior parte das vezes, numa tentativa de fazer chegar ao ouvinte uma idéia” 2.
  • “E, cantor maior da Bossa Nova, João Gilberto, reduziu essa simplificação ao mínimo. Como disse Baden Powell: “Eu acho que o João Gilberto fez o seguinte: ficou só com os tamborins da escola de samba, sabe? É o troço mais nítido que você ouve no meio daquilo tudo. E a parte mais embrulhada ele tirou. Pode ser que a idéia dele nunca tenha sido essa, mas o resultado acho que foi: ficou um negócio mais limpo”. Nossas limitações técnicas foram impulso decisivo de todas essas inovações. E não apenas na música popular.”. (NOBRE, Marcos. A Última Ficha Caiu).

FemaleMan Meets OncoMouse

donna haraway “In the process of materialized reconfiguration of the kinship between different orders of life, the generative splicing of synthetic DNA and money produces promising transgenic fruit. Specifically, natural kind becomes brand or trade-mark, a sign protecting intellectual property claims in business transactions; we will meet this corporeal reconfiguration again in the score for the techoscience fugue” (Haraway 1997:66)

“The technical, textual, organic, historical, formal, mythic, economic, and political dimensions of entities, actions and worlds implode on the gravity well of technoscience – or perhaps of any word massive enough to bend our attention, warp our certainties, and sustain our lives. Potent categories collapse into each other” (Haraway 1997:68).

OncoMouse” “Implosion” does not imply that technoscience is “socially constructed”, as the “social” were ontologically real and separate. “Implosion” is a claim for heterogeneous and continual construction through historically located practice, where the actors ar not all human”. (Haraway 1997: 68).

“Implosion of dimensions implies loss of clear and distinct identities, but not loss of mass and energy. Maybe to describe what gets sucked into the gravity well of a massive unknown universe we have to risk getting close enough to be permanently warped by the lines of force. Or maybe we already live inside the well, where lines of force have become the sticky threads of our bodies” (Haraway 1997: 69).

“The FemaleMan is generic woman “enterprised up” (Haraway 1997: 70).

“The Female Man is literally a contradiction in kind” (Haraway 1997: 71).

“By insisting on the FemaleMan, I also ascribe the copyright to the figure and the text, that is, to the work rather than to the author. It seems only just by late twentieth century to mistake the creature for the creator and to relocate agency in the aliented object. The history of copyright, with its roots in doctrines of property in the self, invites my confusion of creator and creature by its very effort to draw a clear line between subject and object, original and copy, valued and valueless. I hope the original author will  forgive me” (Haraway 1997: 71).

“The representation of the author as proprietor of the work and of the self rested on the Lockean idea of property wich originated “in acts os appropriation from the general state of nature” (…) “property on this account, was not a social invention but a natural right, exercised by the objectification of the person in his works.” (Haraway 1997: 72).

Resenha de Modest Witness meets OncoMouse by Lynn Randolph