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Rádios Livres, Mídias Livres e MediaLabs

O MONOPÓLIO DE FATO

“Nós nos perguntamos: de que monopólio se trata?
De ora em diante, nós podemos responder. Por trás dos status, das diferentes situações, se esconde uma realidade única: a realidade de um poder que exerce um controle quase absoluto sobre as rádios em favor da burguesia. Por trás do monopólio legal se esconde, infinitamente mais poderoso, o monopólio de fato da burguesia sobre as ondas.
(…)
Mas este monopólio de fato não reside unicamente no controle da informação. Em maior profundidade, ele marca o lugar que o rádio ocupa na sociedade, a maneira com que ele é feito e concebido. Alto-falante da sociedade do espetáculo sedimentado da vida real. Produtor de mitos, heróis, anjos e diabos que são os totens e os tabus dos tempos modernos. Banhado por uma nuvem de tecnicismo que se quer imcompreensível, logo incontrolável, este rádio quer nos desviar da ação coletiva tentando destinar-se a cada um de nós individualmente. Ele desenvolve a rotina, a passividade, a uniformidade. Ele é o complemento indispensável do universo do cimento, do betume, da angústia e da solidão.”

“O movimento popular tem interesse em lutar pela mais completa liberdade de expressão, não só pela sua regulamentação. Deve-se então tomar a inicitiva de quebrar o monopólio legal, biombo do monopólio de fato da burguesia, e de construir nessa luta uma relação de forças tal que esse combate não seja completamente recuperado, travestido, traído no momento em que virá a codificação legal.

Segundo nós, hoje a questão de ser ou de não ser a favor do monopólio legal está ultrapassada. A questão que se coloca é de saber se a burguesia vai poder reforçar seu monopólio de fato ou se, ao contrário, o movimento popular va aproveitar essa ocasião para um novo direito, para se dotar de meios de informação e de cultura que lhes são próprios. Se nós sustentamos esta solução, não há nada mais urgente que fazer tudo para que se desenvolva e viva o movimento das rádios livres de expressão popular.”

“Em todo lugar a palvra está sendo roubada, escondida, deturpada, truncada, falsificada: aqueles que fazem a vida real, que trabalham, que lutam, que sonham são sistematicamente evacuados das ondas.”

Para responder ao confisco da palavra monopolizada pela burguesia, as rádios livres entoam seus primeiros balbucios: uma palavra enfim reencontrada. Pareceu-nos possível pegar ao revés a informação oficial e fazer com que uma outra verdade fosse ouvida, livre do dinheiro e do poder. A contra-informação, o reestabelecimento de uma verdade, é uma inquietação e um dever de expressão de uma rádio livre. Mas o jornalismo profissional em busca de um espaço livre, e lucrativo, que serve à expressão direta de múltiplas revoltas contra a opressão e a exploração mostra que tem lugar para uma multitude de projetos de rádio diferentes ou contraditórios. Tentemos levantar a ambigüidade da palavra “livre” de rádio livre, explicando o que é uma rádio livre popular.”

“Para que a expressão seja livre e realmente condizente com as práticas múltiplas, temos que recusar a delegar o poder, delegando nossa palavra: explodir o filtro do jornalismo profissional que esteriliza o vivido, explodir o filtro da linguagem política que se coloca no saber, explodir os canhões de uma estética feita para deturpar as múltiplas práticas que criarão sua própria linguagem.”

A rádio não deve ser uma empresa de informação, até mesmo de “esquerda”, que distribui os tempos de palavra parcimoniosamente, caridosa ou generosamente, mas deve ser um lugar aberto em que todas as expressões das práticas populares se apropriem e se desenvolvam. Ninguém pode se dar o direito de dar a palavra, basta tomá-la. Somente a expressão direta permite que nos demos conta de uma realidade, de um fato vivido, daqueles que os suportam e os transformam; a expressão direta é a única garantia contra as tentações de pequeno chefe poderoso que dorme com um olho aberto voltado pra cada um de nós.”

As práticas múltiplas, espalhadas, marginalizadas devem investir no espaço radiofônico para se confrontar, se confortar, se expressar, para que a multiplicidade, a diversidade se tornem a expressão de um movimento global. Se o fracionamento das práticas múltiplas enriquece o movimento por sua diversidade, ele enfraquece o impacto: sua expressão coordenada em um mesmo local respeita sua diversidade, mas amplifica sua realidade e enriquece seu espaço pela confrontação das experiências”

Práticas múltiplas e diversas necessitam de fato de rádios diversas e numerosas. Transmissores potentes aqui e ali não responderiam a essa necessidade, a palavra seria então cuidadosamente selecionada, limitada por pretextos técnicos, imperativos do tempo… e recriariam a centralização com a qual tanto sofremos.”


“Não nos deixemos impressionar pelos técnicos que replicarão: “Vai ser a anarquia sobre as ondas, vamos nos “interferir” mutuamente.” Trata-se aqui somente de argúcia para justificar “cientificamente” o medo, a rejeição, bem políticos, de assistir à tomada da palavra se generalizar. Nós sabemos que, de um mesmo ponto, mais de cem estações podem transmitir sem interferências e que dez [rádios] encontram lugar sobre um megahertz, sendo trezentas sobre a banda disponível.

Uma rádio livre popular não pode ser a bugiganga de alguns, ela deve ser parte de uma realidade do movimento: redes de sustentação devem se constituir o mais largamente possível. Essas redes podem nascer a partir de estruturas pré-existentes: seções sindicais, associações de bairro, associações culturais, grupos de mulheres, grupos de intervenção sobre terrenos específicos (militar, prisão, escola, psiquiatria, justiça…) que devem levar em conta a elaboração de transmissões de conteúdo próprio, avançando o máximo possível no processo técnico, a fim de não correr o risco de ser desapropriado de sua palavra.

Essas redes seriam múltiplas e diversas: não se trata de criar rádios de partidos que não fariam senão repetir com insistência um discurso político, mas de se situar sobre um plano mais amplo de debate onde os partidos têm seu lugar.

Essas práticas sociais organizadas não saberiam ter exclusividade sobre a elaboração da palavra, sobre as rádios livres populares: toda vivência, mesmo individual, de uma opressão, toda tentativa de outra vida, toda criação ou recriação é parte constituinte das práticas múltiplas, logo das rádios.

O espaço assim criado não é somente a expressão daquele que é contra, mas se faz eco de todas as experiências para um novo cotidiano, diferente.”

Rádios Libres, 1978