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Acesso à Educação, um direito de todxs!

E de visita à Biblioteca do IFCH, na Unicamp, onde se situa o maior acervo de pesquisa em ciências humanas do hemisfério sul, eis que encontrei o editorial de Tom Boellstorff, da famosa revista de American Anthropology Association (AAA), de september 2012, sugerindo que, ao final do acerto com a editora que atualmente a publica, a revista científica da AAA deveria estar disponível para acesso livre na internet (“Begining January 1, 2018, AAA journals should be “gold” open access… freely accessible online…”).

Tom Boellstorff usa o termo “gold” para substituir o “green” access, ou o acesso às primeiras versões dos papers entre pares, que revisam o texto antes de ser publicado. Sua proposta, no entanto, é voltada apenas para 2018, quando terminam os direitos de publicação da editora!

O tema dos custos para acessar às revistas internacionais não é novo, e foi objeto de uma matéria do The Guardian, de 24 de abril de 2012 (Harvard University says it can’t afford journal publishers’ prices). Porém, o argumento que se volta para o aumento dos custos não leva em conta algumas perguntas básicas: quem pagou por esses artigos, já que são em sua maioria escritos por professores universitários? Qual a finalidade dos mesmos (além de aumentar o lucro das editoras)? A que público se destinam?

No Brasil, o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, o GPOPAI da USP, publicou, em 2008, o mais importante documento que conheço sobre o tema, apresentando, já na introdução, um resumo e o objetivo da pesquisa realizada:

“Alguns dos resultados foram surpreendentes, mostrando, de maneira geral, que o livro técnico-científico é, em enorme medida, produzido a partir de pesquisas financiadas com recursos públicos. Além disso, parte da sua produção industrial é subsidiada diretamente pelo Estado por meio de editoras universitárias e, como um todo, altamente subsidiada por uma política estatal de imunidade tributária. Não obstante esse cenário, o Estado tem criado poucas políticas de acesso público à informação que subsidia e tem defendido com pouca força o controverso direito de acesso garantido pelas limitações na nossa lei de direitos autorais. É nossa ambição que esta pesquisa contribua para a mudança deste cenário, sugerindo modificações na lei de direito autoral e políticas para garantir o acesso ao conhecimento nas universidades, escolas técnicas e em centros de pesquisa públicos.” (In: O Mercado de Livros Técnicos e Científicos no Brasil: subsídio público e acesso ao conhecimento).

A discussão sobre a “propriedade intelectual” de todo este material resultante de recursos públicos, considerando também as facilidades que a Internet proporciona para o acesso universal, culminou no movimento em defesa dos Recursos Educacionais Abertos, cuja definição é:
Recursos Educacionais Abertos são materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros. O uso de formatos técnicos abertos facilita o acesso e o reuso potencial dos recursos publicados digitalmente. Recursos Educacionais Abertos podem incluir cursos completos, partes de cursos, módulos, livros didáticos, artigos de pesquisa, vídeos, testes, software, e qualquer outra ferramenta, material ou técnica que possa apoiar o acesso ao conhecimento.”


Ainda há muito que se discutir sobre as diferenças entre “ser autor” de uma obra e “ser proprietário” da mesma, onde considerações sobre o papel da cultura e da criação possam ser postas na mesa (e em condições técnicas de distribuição  contemporâneas) sem estarem submetidas a valores notadamente liberais, onde o “mérito” do  indivíduo proprietário se sobrepõe aos interesses coletivos. A contradição entre as forças produtivas do conhecimento e as relações de produção dos mesmos é bastante evidente, cabendo a nossos legisladores adequarem novas leis aos novos modelos sociais de compartilhamento, em atenção ao direito constitucional de todos ao acesso à informação. A menos que se queira esquecer o costume como orientador das leis, que não nascem da cabeça genial de nossos nobres advogados e deputados, mas das ruas e infovias, do interesse e prática dos cidadãos e cidadãs cada vez mais globais, que queremos uma vida melhor para todos, a despeito dos criativos e tão comuns novos mercados.




Rádio Digital em debate

A discussão sobre a adoção do rádio digital no Brasil terá, no final de fevereiro, duas grandes chances de avançar e amadurecer uma escolha que impactará as comunicações nas próximas décadas: dia 21 está marcada, às 9h30 em um plenário da Câmara dos Deputados (a definir) a reunião da FrenteCom (Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular), cuja pauta é o Rádio Digital e a atuação do Conselho Consultivo do Rádio Digital sob a tutela do Ministério das Comunicações. A outra data importante é o dia 28, das 9h30 às 18h (no Auditório do MiniCom, subsolo), quando as Câmaras Temáticas do Conselho Consultivo apresentarão o andamento de seus trabalhos.

As reuniões ocorrerão um mês após a publicação do importante estudo sobre o padrão DRM+ de rádio digital, um dos concorrentes à adoção no Brasil.

“DRM + foi extensivamente testado no Reino Unido em um ambiente altamente confiável e real. O sistema de antena e a frequência já eram previamente utilizados por uma estação de FM comercial. Um grande número de medições foi realizado por um longo período de tempo e em uma geografia extensa com um sistema de recepção calibrada, tendo sido realizada a análise sobre os dados coletados. Os testes mostraram que o DRM+ é capaz de oferecer uma excelente cobertura com boa qualidade com níveis reduzidos de energia em comparação com FM. A cobertura urbana foi superior à FM, especialmente no modo mais robusto 4-QAM, porque, apesar de alguns drop-outs (travamentos), a experiência subjetiva foi considerada melhor do que a de FM com ruído, cliques e fuzz… Nas áreas rurais, a cobertura também foi excelente embora terrain shielding tenha causado algumas falhas de áudio. No entanto, a experiência foi comparável à FM a partir de transmissores co-instalados.”

“DRM+ was extensively tested in the UK in a highly credible ‘real
environment’. The frequency and antenna system was previously used by a
commercial FM station. A large number of measurements were taken over an
extended period and extensive geography with a calibrated receiving system
and analysis was performed on the data.
The trial has shown that DRM+ is capable of excellent coverage in good
quality at reduced power levels compared with FM…… Urban coverage was
superior to FM, especially in the more rugged 4-QAM mode, because despite
a few drop-outs, the overall subjective experience was found to be better
than that of FM with noise, clicks and fuzz… In rural areas, the
coverage was also excellent although terrain shielding did cause some
audio failure, although this was comparable to the experience with FM from
the co-sited transmitters.”

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

“A tarefa da radiodifusão, como tudo, não se esgota ao transmitir informações. Além disso, tem que organizar a maneira de pedir informações, isto é, converter os informes dos governantes em resposta às perguntas dos governados. A radiodifusão tem que tornar possível o intercâmbio. Apenas ela pode organizar, em conjunto, as falas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo, os debates sobre altas de preço do pão, as disputas municipais. Se consideram que isso é utópico, eu lhes peço que reflitam sobre o porquê de ser utópico.
Mas, seja o que for que o rádio trate de fazer, seu empenho deverá consistir em fazer frente àquela inconseqüência em que incorrem, tão ridiculamente, quase todas as instituições públicas.”
Teoria do Rádio, Bertold Brecht

Faz mais de dois anos, um grupo de pesquisadores vem desenvolvendo pesquisa com o objetivo de subsidiar o governo brasileiro, radiodifusores e ouvintes sobre as possibilidades sócio-técnicas que o padrão DRM de rádio digital pode oferecer para a comunicação social. Vários documentos foram produzidos neste período, todos publicados na Internet [1], [2], [3], [4], [5],  apontando para a imensa superioridade técnica do DRM. Trata-se, resumidamente (DRM para imprensa), de um padrão aberto, regulamentado pela ITU, que funciona em todas as faixas de frequência, que possui o mesmo codec de áudio do Sistema Brasileiro de TV Digital, otimiza o uso do espectro, funciona em baixas potências e consome muito menos energia. Pensado para ser um padrão global de interesse público, o DRM é o favorito de emissoras educativas e estatais de vários países, e aos poucos vai conquistando novos mercados, combinando desenvolvimento econômico ao social.

Essas características bastariam para eleger o DRM o padrão de rádio digital a ser adotado no país, como já o fizeram a Índia e a Rússia.

Porém, muito mais ainda é possível!

As transmissões digitais de rádio, assim como de tv, não se limitam ao transporte de sinais de áudio ou vídeo, mas se voltam mesmo para emissão de dados, fazendo das plataformas digitais que se utilizam da propagação eletromagnética terrestre e também Ionoférica, meios de comunicação de alta capacidade de fluxo de dados: no caso da TV Digital, estamos falando transmissões de taxas até 19MB/s, ou seja, capazes de viabilizar a transmissão de um filme duas horas de alta-definição em aproximadamente 25 minutos.

Mas o que esses dados querem dizer?

Quando se fala em Internet, serviços gratuitos como Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., geralmente se esquece que toda esta comunicação e acesso tão importantes ao cotidiano das sociedades pós-industriais, tudo isso depende de uma infra-estrutura que está fora do controle dos usuários, tais como as fibras óticas que garantem, com segurança, que cirurgias sejam realizadas à distância, ou como o endereçamento DNS, ainda concentrado em poucos países e grupos.

Com o Rádio Digital Mundial, pode-se não apenas transmitir áudios com qualidade de cd para o nosso e outros continentes, mas também arquivos, disponibilizando novos serviços, modificando radicalmente conceitos estabelecidos na era analógica, já que mesmo o audiovisual pode também ser transmitido via rádio digital, como no caso do serviço Diveemo, que consiste da transmissão de vídeo via rádio. Se você leu este post até aqui e deu uma passeada pelos links, já pode imaginar, então, porque os monopólios da comunicação estão trabalhando para evitar ao máximo que o padrão DRM seja o escolhido pelo governo brasuca.

Ao invés do DRM, muitos empresários da comunicação preferem o padrão HD Rádio, propriedade da Ibiquity, padrão este que apesar de ter sido aprovado pela ITU, tem seu codec de áudio como uma “caixa-preta”, é segredo industrial da Ibiquity, funciona mal na faixa do AM, não atende às Ondas Curtas, não funciona bem em baixas potências, consome muito mais energia que seu concorrente DRM, além de não otimizar o uso do espectro. Como estratégia para deslegitimar o DRM, proliferaram recentemente declarações dúbias, inclusive de membros do governo, realizando uma espécie de trocadilho, como a afirmação de Genildo Lins, de que “os testes com rádio digital não foram bons“. O secretário de comunicação eletrônica do governo se refere, na verdade, apenas ao padrão que mantém os mesmos emissores de alta-potência, o HD, já que o DRM, além de funcionar em alta-potência, atende às baixas-potências, sendo o único padrão que funciona em todas as faixas de freqüências.

A proposta de adiamento da decisão sobre o padrão de rádio digital vem acompanhada de uma estratégia de se realizar a migração das rádios AM (na verdade, das emissoras AM em Ondas Médias) para o VHF, acabando com a faixa AM, visto que o HD Rádio teve desempenho insatisfatório na faixa do AM. Se o HD não funciona para as AM, acabemos com o AM, propõem as emissoras comerciais!

Paralelas à escolha do padrão, pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de se aumentarem as possibilidades de comunicação utilizando o espectro, como proposto pela técnica FHSS, ou atentas à necessidade de Espectro Livre, como descreveu David Weinberg, autor também de “O Mito da Interferêcia no Espectro de Rádio“.

Juridicamente, vale à pena lembrar das recentes iniciativas dos governos da Argentina e Equador que, amparados em suas Constituições, promoveram a divisão do espectro em três, visando assegurar a complementariedade dos serviços privado, públicos e estatal de radiodifusão. Se bem sucedida, esta política poderia ampliar enormemente o acesso do cidadão não apenas ao consumo plural de conteúdo, mas viabilizar a livre e diversa expressão das pessoas, através do Espectro Livre, sintonizando as possibilidade digitais com o Art XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificado no Art 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica e presente na Carta Magna brasileira, em seu Art 5o.

Esperamos que este breve artigo sirva de referência para que cidadãos e cidadãs do Brasil, da América Latina e do mundo passem a tomar parte na definição do padrão tecnológico de rádio digital que vigorará em nossas sociedades nas próximas décadas. Nosso interesse não é mais que promover o debate público, em defesa do interesse público, mas a força dos interesses privados parece novamente tentar se sobrepor ao que é melhor para todxs. Contamos com você nesta luta!

Thiago Novaes é Pesquisador em Telecomunicações, membro do Coletivo Rádio Muda – muda.radiolivre.org – e  consultor do http://www.drm-brasil.org/.

Rádio Digital Mundial e a Comunicação Social no século XXI

“A tarefa da radiodifusão, como tudo, não se esgota ao transmitir informações. Além disso, tem que organizar a maneira de pedir informações, isto é, converter os informes dos governantes em resposta às perguntas dos governados. A radiodifusão tem que tornar possível o intercâmbio. Apenas ela pode organizar, em conjunto, as falas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo, os debates sobre altas de preço do pão, as disputas municipais. Se consideram que isso é utópico, eu lhes peço que reflitam sobre o porquê de ser utópico.
Mas, seja o que for que o rádio trate de fazer, seu empenho deverá consistir em fazer frente àquela inconseqüência em que incorrem, tão ridiculamente, quase todas as instituições públicas.”
Teoria do Rádio, Bertold Brecht

Faz mais de dois anos, um grupo de pesquisadores vem desenvolvendo pesquisa com o objetivo de subsidiar o governo brasileiro, radiodifusores e ouvintes sobre as possibilidades sócio-técnicas que o padrão DRM de rádio digital pode oferecer para a comunicação social. Vários documentos foram produzidos neste período, todos publicados na Internet [1], [2], [3], [4], [5],  apontando para a imensa superioridade técnica do DRM. Trata-se, resumidamente (DRM para imprensa), de um padrão aberto, regulamentado pela ITU, que funciona em todas as faixas de frequência, que possui o mesmo codec de áudio do Sistema Brasileiro de TV Digital, otimiza o uso do espectro, funciona em baixas potências e consome muito menos energia. Pensado para ser um padrão global de interesse público, o DRM é o favorito de emissoras educativas e estatais de vários países, e aos poucos vai conquistando novos mercados, combinando desenvolvimento econômico ao social.

Essas características bastariam para eleger o DRM o padrão de rádio digital a ser adotado no país, como já o fizeram a Índia e a Rússia.

Porém, muito mais ainda é possível!

As transmissões digitais de rádio, assim como de tv, não se limitam ao transporte de sinais de áudio ou vídeo, mas se voltam mesmo para emissão de dados, fazendo das plataformas digitais que se utilizam da propagação eletromagnética terrestre e também Ionoférica, meios de comunicação de alta capacidade de fluxo de dados: no caso da TV Digital, estamos falando transmissões de taxas até 19MB/s, ou seja, capazes de viabilizar a transmissão de um filme duas horas de alta-definição em aproximadamente 25 minutos.

Mas o que esses dados querem dizer?

Quando se fala em Internet, serviços gratuitos como Facebook, Blogspot,  Gmail, Youtube, etc., geralmente se esquece que toda esta comunicação e acesso tão importantes ao cotidiano das sociedades pós-industriais, tudo isso depende de uma infra-estrutura que está fora do controle dos usuários, tais como as fibras óticas que garantem, com segurança, que cirurgias sejam realizadas à distância, ou como o endereçamento DNS, ainda concentrado em poucos países e grupos.

Com o Rádio Digital Mundial, pode-se não apenas transmitir áudios com qualidade de cd para o nosso e outros continentes, mas também arquivos, disponibilizando novos serviços, modificando radicalmente conceitos estabelecidos na era analógica, já que mesmo o audiovisual pode também ser transmitido via rádio digital, como no caso do serviço Diveemo, que consiste da transmissão de vídeo via rádio. Se você leu este post até aqui e deu uma passeada pelos links, já pode imaginar, então, porque os monopólios da comunicação estão trabalhando para evitar ao máximo que o padrão DRM seja o escolhido pelo governo brasuca.

Ao invés do DRM, muitos empresários da comunicação preferem o padrão HD Rádio, propriedade da Ibiquity, padrão este que apesar de ter sido aprovado pela ITU, tem seu codec de áudio como uma “caixa-preta”, é segredo industrial da Ibiquity, funciona mal na faixa do AM, não atende às Ondas Curtas, não funciona bem em baixas potências, consome muito mais energia que seu concorrente DRM, além de não otimizar o uso do espectro. Como estratégia para deslegitimar o DRM, proliferaram recentemente declarações dúbias, inclusive de membros do governo, realizando uma espécie de trocadilho, como a afirmação de Genildo Lins, de que “os testes com rádio digital não foram bons“. O secretário de comunicação eletrônica do governo se refere, na verdade, apenas ao padrão que mantém os mesmos emissores de alta-potência, o HD, já que o DRM, além de funcionar em alta-potência, atende às baixas-potências, sendo o único padrão que funciona em todas as faixas de freqüências.

A proposta de adiamento da decisão sobre o padrão de rádio digital vem acompanhada de uma estratégia de se realizar a migração das rádios AM (na verdade, das emissoras AM em Ondas Médias) para o VHF, acabando com a faixa AM, visto que o HD Rádio teve desempenho insatisfatório na faixa do AM. Se o HD não funciona para as AM, acabemos com o AM, propõem as emissoras comerciais!

Paralelas à escolha do padrão, pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de se aumentarem as possibilidades de comunicação utilizando o espectro, como proposto pela técnica FHSS, ou atentas à necessidade de Espectro Livre, como descreveu David Weinberg, autor também de “O Mito da Interferêcia no Espectro de Rádio“.

Juridicamente, vale à pena lembrar das recentes iniciativas dos governos da Argentina e Equador que, amparados em suas Constituições, promoveram a divisão do espectro em três, visando assegurar a complementariedade dos serviços privado, públicos e estatal de radiodifusão. Se bem sucedida, esta política poderia ampliar enormemente o acesso do cidadão não apenas ao consumo plural de conteúdo, mas viabilizar a livre e diversa expressão das pessoas, através do Espectro Livre, sintonizando as possibilidade digitais com o Art XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificado no Art 13 do Pacto de San Jose da Costa Rica e presente na Carta Magna brasileira, em seu Art 5o.

Esperamos que este breve artigo sirva de referência para que cidadãos e cidadãs do Brasil, da América Latina e do mundo passem a tomar parte na definição do padrão tecnológico de rádio digital que vigorará em nossas sociedades nas próximas décadas. Nosso interesse não é mais que promover o debate público, em defesa do interesse público, mas a força dos interesses privados parece novamente tentar se sobrepor ao que é melhor para todxs. Contamos com você nesta luta!

A Natureza Desnaturada

E hoje achei o Manifesto of Urban Cannibalism, escrito por Wietske Maas e Matteo Pasquinelli, e mal comecei a ler, já me veio a ideia desta nota, pois que resumem tudo nas primeiras linhas…
“We should never abandon the city in favour of a virgin territory. There is no innocent state of nature to defend: cities are flourishing ecosystems in themselves, a true ‘human participation in nature’. In fact, nature builds no idea of nature. The image of nature has always been an artifact of human civilisation, a mark of its stage of evolution. Yet we remain unaware that this image is still the projection of our animal instincts and fears on the surrounding environment.”


Uma notícia recente também me chamou a atenção, sobre a tentativa de criar espermatozóide humano com células-tronco, onde a palavra mágica que justifica tudo é a infertilidade.

O Rádio Digital Mundial e o Consenso sem Washington

autonomia Em 10 de outubro de 2009, a presidenta Cristina Fernández de Kirchner substituiu a Ley de Radiodifusión 22.285, promulgada em 1980, durante a ditadura militar, apresentando um novo marco legal para a comunicação social da Argentina, a Ley 26.522. A nova regulação vem seguida de duas tentativas fracassadas de governos passados, mas promove a limitação de propriedade sobre canais de comunicação, enfrentando os interesses estabelecidos historicamente, como os do grupo Clarín, e possui muitos outros pontos específicos, mas todos voltados para a desconcentração dos meios, acesso à pluralidade de informação e pleno exercício da liberdade de expressão.

No Equador, o presidente Rafael Corrêa reafirmou em entrevista a Julian Assange sua luta contra os banqueiros de seu país, donos das empresas que exploram os serviços de telecomunicações.  Assim como em outros territórios, a legislação que vigorava no Equador até 2008, ano de aprovação da nova Constituição, tinha suas origens atreladas à ditadura militar, e basicamente funcionou para concentrar os meios de comunicação entre poucos grupos, atribuindo uma vocação comercial para a programação. O novo projeto de acesso ao espectro de radiofrequências equatoriano inclui uma redistribuição de frequências de rádio e televisão (33% para o setor público, 33% para o setor privado e 34% para o sector comunitário). O Jornal Brasil de Fato publicou em abril um texto em que elogia a proposta de lei do Equador, que poderia ser considerada “a mais avançada do continente”. No subtítulo arriscam: “Este projeto abre o caminho para uma mudança estrutural chave, uma virtual “reforma agrária do ar”“. Tamanha esperança se ampara em dispositivos constitucionais recém aprovados, que instituíram Auditoria sobre o uso do espectro eletromagnético, sendo prevista a reversão da concessão dada e nova atribuição para os casos onde o interesse coletivo não esteja representado; no fomento das emissoras locais com recursos de propaganda publicitária do Estado, entre outros. Uma carta assinada por intelectuais afirma que a proposta “populariza o espectro radioelétrico equatoriano mediante uma redistribuição equitativa das frequências de rádio e televisão (…), elimina os monopólios, fomenta a produção nacional, promove a comunicação intercultural e plurinacional e garante a plena liberdade de expressão e informação”, e “será uma contribuição valiosa para a democratização das comunicações na Nossa América”.

Na Venezuela, o presidente Hugo Chavéz vem implementando políticas de democratização dos meios de comunicação, dando ênfase à distribuição de equipamentos para estúdios comunitários e acesso aos canais transmissores, incluindo um canal por satélite. Um estudo de 2011, coordenado por Carlos Correa, no entanto, ao descrever com detalhe as políticas em curso, aponta criticamente os riscos da “virada” venezuelana, alguns retrocessos, sem comprometer os aspectos convergentes aos quais nos referimos neste presente texto.

Esses três exemplos bastariam para pensarmos um cenário diferenciado de políticas públicas no campo da comunicação social latino-americano, tradicionalmente dominado por pequenos grupos, entre os quais alguns que apoiaram ditaduras recentes. Porém, se estendermos a luta contra a mercantilização do ensino no Chile, as propostas de lei progressistas no Uruguai, os atos de soberania da Bolivia em defesa de seus interesses econômicos e sociais, a resistência indígena em Oaxaca e outras províncias do México, e tantas outras articulações políticas, talvez nossa proposta de consenso fique mais bem caracterizada. A crescente perda de influência dos EUA sobre a América Latina nos abre caminho para criarmos políticas inimagináveis em termos Norte Americanos, onde passamos a investir não apenas em infra-estrutura para comunicar sem estar mediado por interesses comerciais, mas estamos buscando estabelecer novos marcos legais que assegurem um desenvolvimento econômico e social mais justo, democratizando de fato os meios de comunicação. Quando outrora se buscou no Consenso de Washington o caminho de reestruturação das economias sul americanas, impondo um modelo onde Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional desempenhavam papéis centrais na manutenção das dívidas e da parca expansão econômica dos países subdesenvolvidos, agora o momento parece ser de abertura para outros parceiros, novos mercados, e distanciamento de relações comerciais muito desequilibradas, que restringiam o crescimento dos países. Um projeto com tamanha envergadura precisa de meios de comunicação que promovam o debate público necessário para legitimar tais ações de soberania, de enfrentamento político, onde a gestão dos meios de comunicação social passe a considerar de fato a potência da liberdade de expressão na construção democrática. Parece-nos que, em um contexto de grande transformação política, quando praças vem sendo tomadas na Europa, regimes ditatoriais históricos começam a ruir no norte da África, e após sucessivas guerras no Oriente Médio, o destino da América Latina aponta para a mesma tomada de consciência: que após algumas décadas de democracia representativa, a corrupção e distanciamento da classe política de seus representados estabeleceu um abismo que só faz aumentar a expectativa de acesso aos meios. Neste sentido, o planejamento de adoção de uma nova tecnologia de radiodifusão deve estar em sintonia com as reformas em curso, como é o caso do rádio digital, onde um novo horizonte de possibilidades surge para impulsionar não apenas a comunicação no interior de Estados nacionais, mas entre povos e continentes.  Face a este enorme campo de transformações, o que muda então com a digitalização do rádio analógico? O que, em nome da democracia, da liberdade e da auto-determinação dos povos pode ser feito com essa nova tecnologia?

No Brasil, há dois padrões digitais de rádio sendo considerados para implementação do Sistema Brasileiro de Rádio Digital: o HD-Rádio, propriedade da empresa norte-americana Ibiquity, e o padrão internacional proposto pelo consórcio que gere o Rádio Digital Mundial, o DRM. Segundo documento vazado e tornado público pelo WikiLeaks, o sistema a ser escolhido era o norte-americano.

As diferenças entre os dois padrões são enormes. O padrão proprietário da Ibiquity já foi testado por universidades brasileiras, quando lhe foi atribuído um  desempenho insatisfatório; o sistema HD tampouco atende aos pré-requisitos do decreto presidencial que instituiu o Sistema Brasileiro de Rádio Digital, onde se prevê a otimização do uso do espectro. O HD-Rádio, ao contrário, duplica a ocupação do espectro durante o período de transmissão simultânea de sinais analógicos e digitais, possuindo um codec de áudio sem qualquer descrição técnica pública, ou seja, uma caixa-preta.

Doutorado em Ciencias Sociais, sobre politicas de comunicacao comunitaria na america latina, Universidade do Mexico, 2011.

Imagem de Rizoma

Com baixíssima potência é possível transmitir para uma comunidade o sinal digital, que soma à transmissão sonora o envio de dados, criptografados ou não, para demodulação em aparelhos portáteis, ou em um combo conectado a computador.

Anonimozegratuitos em terras Argentinas

post humanism O tema das técnicas de reprodução assistida ainda é pouco conhecido, mesmo em uma capital onde os procedimentos técnicos da moderna biomedicina são tidos como os mais avançados. Ao propor a existência de um problema ético envolvendo a fabricação de filhos, não são apenas as transformações sobre a concepção natural do parentesco que ganham lugar, mas a possibilidade de descrever os desejos e necessidades que antes não existiam, mas hoje são compartilhados socialmente e viabilizados com altos investimentos financeiros. Se outrora as técnicas auxiliavam casais inférteis a realizarem seu sonho, hoje convive-se com a formação de famílias homossexuais, que rompem com um certo modelo natural, destacando-se ainda um outro modelo, que se impõe com a procriação monoparental, como no caso das mães solteiras que recorrem aos Bancos de Sêmen: ao projetar sua gravidez independente, muitas vezes se anseia por configurar sua cria mais perfeitamente, escolhendo cor de olhos e cabelo, podendo-se inclusive realizar o Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, capaz de localizar aberrações cromossômicas e excluir os embriões dotados de genes conhecidamente causadores de doenças, como câncer de mama e ovário.

Na Argentina, onde existe uma filial do maior Banco de Sêmen do mundo, o CryoBank, faz pouco mais de um ano e meio, aprovaram uma lei que considera a infertilidade uma doença, (Ley 14208) devendo estar prevista em planos de saúde, onde ressalto os seguintes aspectos: ao considerar apenas os casos de infertilidade, a lei permite apenas a doação homóloga de sêmen, para concepção de um filho biológico de um casal heterossexual. Aprovada a lei, seguiu-se sua regulamentação –  o Decreto 2980 -, que estabelece o perfil da paciente, possuindo entre 30 e 40 anos, dando-se prioridade às mulheres que não tenham tido filhos em sua atual relação (ao que parece, supõe-se sempre apenas o interesse de um casal heterossexual).

post humanism A barriga de aluguel, ou a gestação solidária não estão previstas nas leis argentinas, mas um projeto apresentado em agosto de 2011 na Câmara dos Deputados visa legalizar a situação sob algumas normativas.

Uma das Clínicas mais conhecidas de Buenos Aires dedica um texto sobre “tratamiento” às madres solteras, amparando-se nas leis vigentes:

“Cada vez es mayor el número de mujeres solas que, por distintos motivos, eligen esta opción para ver realizado su deseo de ser madres.
En nuestro país, la anterior Ley 35/1988 ya permitía estos tratamientos a toda mujer indicando en su Exposición de Motivos que “…desde el respeto a los derechos de la mujer a fundar su propia familia en los términos que establecen los acuerdos y pactos internacionales garantes de la igualdad de la mujer, la Ley debe eliminar cualquier límite que socave su voluntad de procrear y constituir la forma de familia que considere libre y responsablemente”.
En el artículo 6 de la vigente Ley 14/2006 sobre Técnicas de Reproducción Humana Asistida se indica que: “Toda mujer mayor de 18 años y con plena capacidad de obrar podrá ser receptora o usuaria de las técnicas reguladas en esta Ley, siempre que haya prestado su consentimiento escrito a su utilización de manera libre, consciente y expresa.
La mujer podrá ser usuaria o receptora de las técnicas reguladas en esta Ley con independencia de su estado civil y orientación sexual.”

Embora tudo se passe de forma a assegurar direitos, ao promover a seleccion fenotipica, a seleccion genetica, não se trata de curar a infertilidade, mas de promover um acoplamento humano-máquina que torna indistinto campos antes bem delimitados como cultura e tecnologia. O direito de personalidade consta entre os fundamentos constitucionais de inúmeros países, mas se converte em letra morta face ao desenvolvimento das TRA junto ao modelo tecnocientífico capitalista. Por fim, um novo mercado de produtos humanos se estabelece sob a justificativa da infertilidade, por vezes apresentando o argumento da melhoria da saúde, mas ainda evitando enfrentar a ruptura ontológica que permeia o trabalho técnico sobre o surgimento de novos seres, desprovidos de nome paterno, ou conhecimento sobre sua origem genética.

Em 6 de julho último, a província de Santa Fé aprovou “uma sanción para la ley de infertilidad“, considerando-a uma enfermidade e prevendo seu atendimento como servico de saúde.

Em um artigo publicado na Internet, em agosto de 2012, cujo título é “Donacion de Semen: el padre, un debate pendiente“, trata-se do aumento do uso das técnicas de reprodução assistida no Ocidente, onde proliferam sem qualquer limite legal.

“Sólo en España, el número de mujeres que acuden a un centro en busca de esperma de donante se quintumplicó. En Argentina, si bien no hay datos que alumbren el fenómeno, las clínicas coinciden en un mismo diagnóstico. Las consultas por espermodonación crecieron del 10% al 30% en apenas cinco años, y cada vez más mujeres solas y parejas lesbianas recurren a esta opción. “

post humanism

projeto de lei na argentina
art mexico 2011
lei na col^mbia (1998)

Post Humanism

Donación de esperma

A Mídia Livre e o Comum

Faz dois dias, publicaram no site da Universidade Nômade um artigo interessante intitulado “O Comum e a Exploração 2.0”.

O texto inicia com uma crítica ao III Fórum de Mídias Livres, assumindo sua organização como diferente das outras duas edições, onde “não só [se] debateu horizontalmente, como [se] contribuiu para a formulação de uma frente transversal de construção para as novas mídias livres e/ou redes colaborativas. O que se traduziu, por exemplo, na política dos Pontos de Mídia Livre”. Já esse último Fórum teria sido um evento “pré-formatado e pré-pautado”.
 
 
Não sei quanto a vocês, mas se vou a um evento, gostaria sim de saber previamente qual o formato (mesas de discussão, desconferência, rodas, oficinas…) e, claro, ter os assuntos a serem debatidos previamente publicados: trata-se de organização, não imposição como quer fazer parecer o texto. Ademais, os temas escolhidos contemplaram discussões correntes em várias listas e buscaram dar vazão às diferentes experiências de democratização da comunicação, abrangendo desde a luta tradicional por acesso e produção de conteúdo independente à emergente convergência que um protocolo técnico de redes pode possibilitar para o trabalho colaborativo. O debate aconteceu pra quem esteve lá, e também foi transmitido parcialmente pela Internet.
 
 
O artigo segue citando um email “vazado” de uma liderança do coletivo Fora do Eixo para acusar a organização do III FML de “centralizadora”. Contesta a legitimidade do Grupo de Trabalho Executivo de Mídia Livre estabelecido no último fórum, a ausência de comunicação em uma lista de discussão (forum-de-midia-livre@googlegroups.com) e a participação de Pontos de Cultura e hackers na construção do encontro como determinantes para ter “camufladas a hierarquização e a fragmentação por meio da mística do consenso”… Críticas contundentes que até surgiram no espaço do III FML, mas jamais fizeram parte da referida lista de “midialivristas” que, na verdade, não funciona, não promove debate algum, nem recebe ou recebeu qualquer contribuição dos “intelectuais” da Universidade Nômade para a “construção da mídia livre no Brasil”. Se houve esvaziamento da interface burocrática Estado-Mídias Livres, talvez se devesse apontar as condições reais de que dispõem os “midialivristas” para utilizarem recursos públicos para se encontrarem e promoverem suas políticas. Tomar o resultado por origem do problema não me parece a melhor forma de análise sobre o III FML.
O texto é curioso: ataca a burocracia para burocratizar qualquer processo de constituição das mídias livres. Afirma: “Diante disso, vale a pena problematizar o estado do processo de constituição de “mídias livres” e mais em geral o movimento da “cultura” de resistência à restauração no MinC”. Mas afinal, de que mídia livre e que “cultura de resistência” estão falando?
A mídia livre, no Brasil, tem raízes espalhadas em cada canto onde funciona uma rádio livre ou comunitária sem concessão do Estado, lá onde se estão derrubando sites de prefeitura, onde tem um camelô ganhando o seu… A mídia livre que se constituiu como política pública não contempla 1% das  iniciativas de comunicação livre e compartilhamento de arquivos entre redes em plena operação no Brasil. E, ainda que autogeridas e autônomas, essas iniciativas pairam sobre os planos organizados de demandas enquanto Públic0-Não-Estatal, não havendo necessidade de qualquer tutela “intelectual” sobre o que é ou não a construção do comum para esses coletivos auto-determinados.  Tal como apresentada, a crítica ao modelo de organização de um evento como um Fórum – se baseada em “emails” pontuais vazados, e negando-se à participação em plenária, aberta e democrática – soa desonesta e imatura. O Fórum Mundial de Mídia Livre está previsto para acontecer no Rio e deve sim ter sua organização contaminada com os novos processos e lutas sociais, sem o quê estará se expondo à tomada súbita da palavra pelos que têm algo a dizer, direta e concretamente, sobre a forma que se propõe o evento e sobre o conteúdo do que realmente os coletivos/organizações querem colocar em disputa. Mas isso tudo na ágora, no falar de pronto, sob o impulso de quem se levanta (stand up), não como quem é acordado (wake up)…
O texto segue se propondo a criticar o Fora do Eixo, apresentando um debate já bastante conhecido entre as redes de ativismo anti-capitalista. Sob a máxima “quem tá junto tá junto” a forma “empreendedores 24h” seduz como uma alternativa (liberal) de vida, onde o reconhecimento e o crédito operam como nos velhos esquemas das pirâmides de negócio para acúmulo de poder. Mas até onde alcança a teoria crítica sobre esse tufão revolucionário?
Argumenta-se que  FdE é uma experiência radical de transformação do cotidiano, onde os coletivos organizados e autônomos têm mantido suas próprias residências coletivas, alimentação compartilhada, chegando mesmo a terem sua própria moeda de troca. Um processo aberto e em permanente construção cujo horizonte seria a emancipação e a busca de relações mais humanas entre as pessoas.
O caráter ambíguo do FdE, ao contrário das críticas que lhe são desferidas, pontuaria também uma possibilidade de atuar dentro do sistema capitalista almejando relações alternativas às capitalistas, o que poderia lhe conferir lastro em uma filosofia política da pirataria. Porém, de acordo com o texto, o futuro do “pós-rancor” é despolitizado quando se submete à velocidade mercadológica produtiva, valendo-se relações de exploração de trabalho voluntário para atribuir o que chamarei de identidade/pertencimento à forma dominante de socialidade no FdE. Mesmo autônomos, os coletivos locais reproduzem a mesma habilidade de gestão/improviso típicas da chamada nova cultura capitalista (R. Sennet), adaptando novas hierarquias que facilitam a incorporação desses valores como centrais em suas experiências compartilhadas. Verdadeiros “espertos ao contrário”, diria  Estamira, seu trabalho quer ser adaptado e resistente aos novos negócios capitalistas, mas talvez sujeito às mesmas mazelas de controle e submissão ao sistema produtor de desigualdades.
Em uma entrevista de 2008, Toni Negri afirma:
“quando dizemos que nos encontramos hoje em uma sociedade pós-moderna ou pós-fordista, estamos afirmando algo [bastante] preciso, a saber, que os meios de produção se modificaram, as formas de ação se transformaram, e que é necessário então desviar (détourner) as potências de resistência. Mas a primeira coisa a fazer nessa situação é aceitar essa realidade. Saímos da ilusão segundo a qual seria possível [p.565] modificar o mundo a partir da literatura, da tradição ou das formas sociais antigas. Essas novas formas de resistência, é preciso inventá-las. É preciso então desviar todos os instrumentos dos quais dispomos para esse fim.” (“Entretien avec Ton Negri”, Rev. Critique, 2008, 735-36, p.566).
Assim, ao assumir uma crítica aguda sobre a exploração 2.0, não são apenas as relações de trabalho que se busca revelar, mas todo o complexo subjetivo que mobiliza coletivos e redes à colaboração. Para Negri, o capitalismo produz uma assimetria fundamental que o faz pirata de seus pretensos piratas, e se organiza a partir das formas de resistência que a ele se apresentam, onde a única saída é o desvio, “a compreensão do real”, “quando a potência intelectual se combina com a capacidade de transformação.”  Quando se pergunta sobre as relações de socialidade do FdE a abordagem biopolítica quer sobressair nas análises, sem seguir, porém, os rastros de desvios concretos promovidos localmente em relações sociais dentro de um novo campo produtivo, que não apenas reproduz velhas formas, mas as inventa com as ferramentas de que dispõe.
Eis talvez o sentido deste breve artigo: apontar que a adoção da velocidade “pós-rancor” não se situa apenas em um processo alienador de exploração do trabalho, mas antes provoca também uma nova abordagem epistemológica, revelada em uma junção híbrida composta do humano e da técnica, que produz novos arranjos, escapando às oposições clássicas entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade. Trata-se de tentar dar conta de operar além de um modo de funcionamento da teoria que toma os fatos como dados universais e as ideias sobre estes variantes, como defendido pela antropóloga Marylin Strathern (“I wish to demonstrate how ideias behave”) em seu livro After Nature, de 1992. Quero dizer então de uma crítica ao instrumentalismo sobre a técnica, que separada do humano, lhe surge como fonte de dominação, em uma disposição de poder que poderíamos considerar análoga à capacidade de captura do capitalismo. Assim como precisamos da natureza para sobrepor nossas relações biológicas de parentesco (por mais que avancem a reprodução assistida e o melhoramento genético já em embriões) continuamos vivendo sob a premissa de transmissão de propriedade por laço consanguíeno, oriundo de pai e mãe. Mesmo diante da habilitação a novos desejos com a técnica, sua função permanece teoricamente limitada muitas vezes a abordagens pós-natureza, como sobre um fato em “si”, quando tudo na verdade teria sido em algum momento inventado… O pós é, na verdade, o sempre behind, como se o futuro estivesse sempre ali pronto a ser superado por um novo fato da natureza, uma nova descoberta ou controle sobre uma potência da natureza… é o futuro imaginário que já foi (Barbrook 2009), como os cálculos de extração de petróleo em um mundo de aquecimento global.
Ao teorizar sobre o comum,  “na esteira do marxismo operaísta, da filosofia da diferença e da antropologia canibal, [como]  uma organização política das relações produtivas e materiais” o texto aponta possibilidades, mas não caminhos ou práticas: o comum está no ponto de partida.
Mas, afinal, onde está essa tal “ocupação intensiva do espaço e do tempo”, que afirma o comum como “necessariamente antagonista”?
O comum como prática política, ao contrário, me parece forte se necessariamente ambíguo: não havendo como sabotar o comum, e sempre correndo-se o risco de captura pelo capitalismo, são os piratas os que ainda melhor representam o desvio possível da conduta subjetiva programada para o mercado (o compartilhamento de arquivos protegidos por direitos autorais). Como forma de expressão, utilizam software de criptografia, esteganografia, dando nova forma para a noção de troca, dada a condição abundante de circulação de riquezas imateriais.  A alternativa de um hardware livre e pela banda larga nada operam contra a vigilância dos provedores-delatores, sendo consideradas obsoletas por aqueles que investimos em tecnologias do comum, que permitem a apropriação e comunicação comum: estamos na iminência de decidir sobre a tecnologia de rádio digital que vigorará nos próximos 50 anos e a crítica é after Fórum de Mídia Livre, pós-exploração 2.0.
 
O mediativismo, como nos lembra Bifo, “não propõe um uso alternativo das medias no sentido do conteúdo: trata-se antes de curta-circuitar o meio no nivel de sua estrutura, dentro de seu sistema de funcionamento linguístico, tecnológico, de se atacar aos agenciamentos, às interfaces, de reagenciar e de refinalizar o dispositivo, e não somente o conteúdo que ele produz” (Bifo: original em francês). Ainda que pontuando formas subsumidas ao capitalismo, a exploração 2.0 e comum precisam de uma crítica que, de um ponto de partida comum (a liberdade!) sejam capazes não apenas de produzir “seu conteúdo”, mas agenciar processos e expressões que habilitem a tomada generalizada da palavra, em sintonia com a voz que ecoa cada vez mais nas praças e ruas, aproximando um contingente de desempregados a antigas utopias de igualdade e humanismo, mesmo quando esse não mais possui as mesmas bases teóricas para se produzir como teoria, mesmo que cordeiros ainda não tenham ganhado a força de predar como leões.

 

Que progresso?

O tema que proporia hoje, para compor um campo de discussão fundamental para a introdução à Antropologia, é discutir a noção de Progresso, dividido em três abordagens: sobre o progresso da história, a evolução do corpo e o progresso da ciência. E a pergunta é: o que é progresso?

O progresso está entre os pilares do pensamento das sociedades pós-industrais, impondo acelerações incríveis sobre as transformações na maneira de viver e conceber a vida em suas mais distintas formas. Tomando como referência o relativismo cultural, sugiro um debate em torno dos conceitos de raça e cultura, apresentando o conceito de etnocentrismo, como em Lévi-Strauss  [1]. Preparando terreno para estudos sobre a corporalidade e mesmo o aprendizado técnico [2], acredito que seria interessante relacionar As Técnicas Corporais, de Marcel Mauss, um segundo clássico. Por fim, um livro de Latour para discutir a ideia de progresso da ciência, compondo com a crítica de lévi-strauss e a possibilidade de técnica na magia [3] relações de reflexão que introduzam o pesquisador ao pensamento antropológico ao mesmo tempo em que lhe apontem distintos caminhos dentro da disciplina.

LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História.
http://pt.scribd.com/doc/31225878/Levy-Strauss-Raca-e-Historia
MAUSS, Marcel , As Técnicas Corporais.
http://www.4shared.com/document/XOBrNpWW/Livro_-_Antropologia_II_-_As_T.html
LATOUR, B. Reflexão sobre o Culto Moderno dos Deuses Fe(i)tiches.
http://pt.scribd.com/doc/15482125/reflexaosobreocultomodernodosdeusesfeitichesbruno-latour

SIMONDON, G. Les limites du progrès humain. 1959.

Limitações técnicas e estética: novas mídias e baixa resolução

Faz algumas semanas que trocamos emails entre listas de discussão com o assunto “Abrindo o Código Fechado”, tendo como orientador do debate a comparação entre a produção audiovisual utilizando software livre e software proprietário. Qual não foi minha surpresa ao receber hoje a mensagem da fabs, retomando a discussão que propusemos, apontando evidentemente para direções distintas das rotas e imaginários traçados pelo mercado, apresentando um artigo e um vídeo em uma tela pequena como contribuição ao debate “Estética e Baixa-Resolução”.

Abaixo segue a apresentação do texto assinado por Marcelo B. Conter, que ilustra seu post com o referido vídeo.

Essa discussão me é muito cara, pois fico intrigado com todas as tecnologias de “alta definição” que são vendidas como tais para os consumidores, embora na maior parte do tempo lidamos com hardwares e softwares de baixa definição: os celulares, mp3 players e suas microtelas; os vídeos do YouTube; a maior parte da programação da TV aberta; as câmeras de vídeo de nossas máquinas fotográficas amadoras e câmeras de celular; o formato mp3; câmeras de vigilância; e assim por diante.

Como era de se esperar essa “limitação” técnica acaba por gerar uma estética nova, e artistas acabam por se apropriar dela.”

Leia o artigo clicando aqui.

O tema da “limitação” versus “estética” foi o centro do argumento que pretendi defender junto à French Philosopherassertativa: o software livre é mais evoluído que o software proprietário porque está constantemente aberto à inovações da cultura. Ao contrário do software autômato, privado, parece tecnicamente mais adaptado às necessidades humanas aquele objeto técnico mais aberto, onde já foi possível desenvolver o conhecimento de maneira a compor com a intuição o verdadeiro arranjo humano-máquina não alienado. A esse respeito, não posso evitar a referência à obra de Gilbert Simondon, MEOT 1958, e especialmente o artigo “Os limites do progresso humano”, de 1959, em que o filósofo das técnicas afirma:

  • O problema do progresso humano não pode ser colocado sem fazer intervir o sistema completo da atividade e da existência constituída pelo que o homem produz e pelo que o homem é. Considerar o que o homem produz (linguagem técnica) não pode permitir estimar o progresso humano nem prever sua lei de desenvolvimento em função do tempo, porque a atenção é então unicamente dirigida para uma concretização objetiva da atividade humana
  • Para que o progresso técnico possa ser considerado como progresso humano é preciso que implique uma reciprocidade entre o homem e as concretizações objetivas” (…) “O progresso técnico seria muito mais profundamente um progresso  humano se já fosse um progresso todo das técnicas, compreendida a agricultura, que é por excelência, e em todos os sentidos do termo, a parente pobre.”
  • “Esse progresso seria muito mais lento em cada ponto e muito mais profundo em sua totalidade, logo, muito mais progresso. Transformando todas as condições da vida humana, aumentando a troca de causalidade entre o que o homem produz e o que ele é, o verdadeiro progress0 técnico poderia ser considerado como o que implica um progresso humano se tiver uma estrutura em rede, estando as malhas dessa rede na realidade humana.”
  • “A reflexividade do pensamento é a forma consciente da ressonância interna do conjunto formado pelo homem e a concretização objetiva, e esse pensamento que assegura a continuidade entre as fases sucessivas de progresso, e é apenas ela que pode manter a preocupação com a totalidade, e fazer assim com que o descentramento do homem, paralelo à alienação da concretização objetiva, não se efetue. Hoje em dia o pensamento reflexivo deve particularmente se prender a guiar a atividade técnica do homem em relação aos homens, porque é nesse domínio que existe o maior perigo de alienação, e onde se encontra a ausência de estrutura impedindo o progresso técnico de ser exercido na concretização objetiva sendo parte integrante do progresso humano, que forma sistema com o homem. A questão dos limites do progresso humano não pode ser colocada sem a dos limites do pensamento, porque é ele que aparece como o principal depositário do potencial evolutivo da espécie humana.” (Simondon 1959)
Renato Fabbri
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Mais opções 31 ago, 13:51

Voltando à discussão mais reta.

Temos algumas opções interessantes provenientes
de discussões diversas a respeito. Abaixo escreverei
duas delas.

1) Uma delas é entrar em contato com a FSF e ver se
não topam subsidiar os advogados e as pessoas
envolvidas para entrar na justiça pedindo a abertura dos
códigos.

2) Outra é usar croudfunding para comprar algo como um adobe after
effects ou um vegas. O Blender foi aberto desta forma, não?

Em 25 de agosto de 2011 23:28, Daniel Prado <dtpr@gmail.com> escreveu:

> só um comentário rápido…

> muito das polêmicas que pareceram se devem ao fato de que eu ousei comparar
> a eficiência dos livres com os proprietários. Se eu tivesse listado todas as
> melhorias desejadas sem comparar talvez não tivesse tanto ruído…

> mas tb talvez não tivesse tanto engajamento na thread 😉

> Em 25 de agosto de 2011 19:42, Leo germani <leogerm@gmail.com>escreveu:

>> nossa.. tá rolando um cross post sem dó né?

>> Mas ó, de tudo q foi falado, alguns comentários

>> 1. Moviola era a tecnologia mais avançada no tempo de Eisensten

>> 2. Não li história do Tom Jobim, mas me parece que ele não tinha opção. Um
>> continente o separava do equipamento que ele _gostaria_ de usar, enquanto a
>> galera aqui tem os softwares proprietários todos a mão. Ele não fez uma
>> opção, nem política, nem estética – ele se virou com o que tinha e foi
>> genial.

>> 3. o mesmo vale pros nigerianos (que começaram com VHS, não sei como estão
>> hoje)

>> 4. mercado não é o oposto de produção artística/autoral. As coisas estão
>> juntas e misturadas.

>> 5. Quem não tá na prática diária, produzindo, experimentando pra valer,
>> tem que ser mais humilde na hora de cagar regras

>> 6. Comentei em outro email o problema das patentes de software nessa área
>> e ninguém. Esse é um problema muito sério e que tem que ser combatido. Nessa
>> área, especificamente, eu boto fé que muita gente que poderia investir não
>> investe pq tem medo de tomar processo na cabeça

>> Leo,,

>> 2011/8/25 Philipe Ribeiro <ribeiro.phil@gmail.com>

>>> Nunca consegui ter a mesma eficiência que tenho no Cinelerra usando
>>> qualquer um desses… Você sabe se algum desses (ou qualquer outro) tá
>>> redondo em HD? Só preciso capturar em alta, montar com corte seco e
>>> renderizar usando um codec similar ao h264… se algum desses fizer isso,
>>> mesmo que eu demore mais na edição, vai estar melhor que o nosso querido
>>> Cinelerra…

>>> Obs: uso juntaDados =)

>>> Em 25 de agosto de 2011 16:22, Marcelo Soares Souza <
>>> marc@juntadados.org> escreveu:

>>>>   E você já experimentou o Kdenlive, OpenShot, PiTiVi?

>>>> Em 25 de agosto de 2011 16:19, Philipe Ribeiro <
>>>> ribeiro.phil@gmail.com> escreveu:

>>>>> Alta resolução não é sin6onimo de cinema, mas hoje se você pega trampos
>>>>> pro cinema os caras vão querer que sejam finalizados em alta e creio se faz
>>>>> necessário correr atrás para que o Cinelerra comece a ficar redondo em alta
>>>>> antes que entre em desuso, infelizmente.

>>>> —
>>>> Abraços
>>>> Marcelo Soares Souza
>>>> http://marcelo.juntadados.org

>>>  —
>>> Essa mensagem foi postada no grupo:
>>> http://groups.google.com/group/gtculturadigital?hl=pt?hl=pt-BR

>>> Esse grupo está ligado ao Movimento Cultura Digital:
>>> http://culturadigital.br/movimento

Enquanto o imaginário político se volta para as limitações econômicas como se atreladas ao que de mais evoluído tecnicamente já foi produzido, inúmeras comunidades de desenvolvedores de software livre continuam abertas e propondo novas formas de produzir, licenciar e distribuir software.

Brazilian Maestro Como exemplo da relação “estética x progre$$o tecnológico”, citei a tese dos professores da Unicamp, Marcos Nobre e José Roberto Zan, de que a criação da ruptura estética da bossa nova está intimamente ligada à limitação técnica de uso das mesas de som com poucos canais, sobretudo na composição do maestro Tom Jobim, ocasionando aquilo que ficou conhecido com a simplicidade de dimdomdindin.

  • PROFISSIONAL Jobim se via antes de mais nada como um profissional da música, uma novidade no panorama da música brasileira de então. E vê nos festivais um evento pernicioso para a profissão: “Acontece que a noite no Rio desapareceu. Antigamente, os músicos tinham emprego. Agora, não. Só tem os festivais“.
  • “A perspectiva do profissional permeia todas as entrevistas e depoimentos. E acaba por ressaltar elementos que podiam e ainda podem passar por laterais e secundários. Exatamente porque não se pensa Tom Jobim como o “profissional da música” que queria ser. Em uma das inúmeras vezes em que é confrontado com as “acusações” de plagiar compositores ou de ser pouco “brasileiro”, o profissional orgulhoso do seu ofício responde apontando para a partitura de Chopin em cima do piano: “Olha aqui: o negócio de você fazer um acorde menor e aumentar ou diminuir a quinta é mais velho do que o mundo. O ‘Prelúdio nº 4’, de Chopin, está aí em cima do piano para provar que Tom Jobim não é original, Baden Powell não é original, mas somos todos originais porque estamos na restinga da Marambaia e o ritmo é samba. E o meu negócio é samba, está entendendo?“.
  • DEPOIMENTO Daí a importância do extenso depoimento do Museu da Imagem e do Som do Rio, em 1967. Depoimento coletivo, mas claramente centrado em Jobim, do qual participaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Ricardo Cravo Albin, Oscar Niemeyer, Dori Caymmi e Raimundo Wanderley. Quando, para ganhar a vida, Tom se integrou ao meio da música popular no início dos anos 1950, além de atuar como músico da noite, passou a trabalhar em gravações na Continental Discos como arranjador e regente de orquestras. Naqueles anos, novas tecnologias desenvolvidas no pós-Guerra estavam revolucionando a indústria fonográfica; entre elas, o acetato, o multicanais, a estereofonia e o hi-fi (alta fidelidade). Jobim lembra que no período pré-bossa nova ainda se gravava em 78 rpm, e reconhece, um tanto melancolicamente, o “nível precário” das condições de gravação no Brasil, o que teria levado a “uma série de problemas na música”. Em muitos outros campos, como o cinema ou as artes plásticas no Brasil -basta pensar no cinema novo, por exemplo-, saltos de qualidade estética também estiveram intimamente ligados à exploração criativa das condições precárias de produção. O que mostra que, para entender a canção, é preciso mais do que música e letra. É preciso entender o país. E as condições concretas em que a canção foi e é produzida.”
  • “Como resume Jobim no depoimento de 1967, em função da precariedade dos nossos estúdios foi feita uma certa “triagem, necessidade de se trabalhar com menos instrumentos […] Os americanos estão gravando com oito canais -é possível que com oito canais você possa gravar a escola de samba mesmo como ela é. Porque se você pegar a escola de samba e colocar dentro do estúdio pra gravar, soa como um mar em tempestade […]. É por isso que a bossa nova -ela teve raízes seríssimas no samba- teve aquela necessidade de limpar um pouco”

A canção e a vaiaA morte da canção e o imortal Tom Jobim

JOSÉ ROBERTO ZAN
MARCOS NOBRE

  • Em 1930, Almirante levou para o estúdio de gravação, pela primeira vez, tamborins, cuícas, surdos, pandeiros e reco-recos. Com isso, colocou a nova concepção de arranjo rítmico da música popular brasileira em compasso com os novos meios elétricos de gravação disponíveis. Mais tarde, já sob o Estado Novo, Radamés Gnatalli vestiu o samba de casaca, com arranjos orquestrais sofisticados que pretendiam nos colocar em sintonia com o glamour hollywoodiano. Essas tentativas de colocar a música popular brasileira em compasso com os meios tecnológicos de produção disponíveis deram um salto inventivo no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial. Nos dois primeiros anos do governo Dutra, a farra de importações que queimaram todas as reservas internacionais acumuladas no período anterior trouxe discos com um jazz muito mais sofisticado e complexo. Como conseguir estar à altura dessas novas formas de produção musical com as limitações técnicas de nossos estúdios de gravação?
  • A resposta de Tom Jobim foi a de uma simplificação genial. Nas palavras dele: “A harmonia, de uma maneira geral, simplificou-se. Simplificou-se e enriqueceu-se. Muitas notas foram tiradas dos acordes: tirou-se as quintas que já soavam no harmônico do baixo etc. Por causa da precariedade das gravações de nossos estúdios. A gente tinha vontade de que se ouvissem as vozes que a gente queria que fossem ouvidas (…). Não adiantava aquela massa amorfa de cem violinos. Então veio aquela economia total: uma flautinha, quatro violinos tocando em uníssono, na maior parte das vezes, numa tentativa de fazer chegar ao ouvinte uma idéia” 2.
  • “E, cantor maior da Bossa Nova, João Gilberto, reduziu essa simplificação ao mínimo. Como disse Baden Powell: “Eu acho que o João Gilberto fez o seguinte: ficou só com os tamborins da escola de samba, sabe? É o troço mais nítido que você ouve no meio daquilo tudo. E a parte mais embrulhada ele tirou. Pode ser que a idéia dele nunca tenha sido essa, mas o resultado acho que foi: ficou um negócio mais limpo”. Nossas limitações técnicas foram impulso decisivo de todas essas inovações. E não apenas na música popular.”. (NOBRE, Marcos. A Última Ficha Caiu).