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As grandes diferenças entre os pensamentos Ocidental e o Oriental

Os filósofos ocidentais vêem duas grandes diferenças entre o pensamento oriental e o seu. A seus olhos, o pensamento oriental se caracteriza por uma dupla recusa. De cara, recusa do sujeito; porque sob modalidades diversas, o hinduismo, o taoismo, o budismo negam o que para o ocidente constitui uma primeira evidência: o eu, cujas doutrinas  a ele se ligam para demonstrar o caráter ilusório. Para essas doutrinas, cada ser não é mais que um arranjo provisório de fenômenos biológicos e psíquicos sem elemento durável tal como um “si”: vã aparência, levada inevitavelmente a se dissolver.

A segunda recusa é aquela do discurso. Desde os Gregos, o Ocidente crê que o homem tem a faculdade de apreender o mundo utilizando a linguagem a serviço da razão: um discurso bem construído coincide com o real, ele atende e reflete a ordem das coisas. Ao  contrário, segundo a concepção oriental, todo discurso é irremediavelmente inadequado ao real. A natureza última do mundo, supondo que esta noção tenha sentido, nos assusta. Ela transcende nossas faculdades de reflexão e de expressão. Não podemos com isso conhecer nada e, então, nada dizer sobre isso.

A essas duas recusas, o Japão reage de maneira totalmente original. Ele certamente não atribui ao sujeito uma importância comparável àquela que lhe atribui o Ocidente; ele não o toma como ponto de partida obrigatório de qualquer reflexão, de qualquer empreendimento de reconstrução do mundo pelo pensamento. Poderíamos dizer mesmo que “Eu penso, logo existo” de Descartes é rigorosamente intradutível em japonês…

Mas não parece tampouco que, sobre esse assunto, o pensamento japonês o anula: no lugar de uma causa, ela o toma como um resultado. A filosofia ocidental do sujeito é centrífuga: tudo parte dele. A maneira pela qual o pensamento japonês concebe o sujeito aparece antes centrípeta. Assim como a sintaxe japonesa constrói as frases por determinações sucessivas indo do geral para o especial, o pensamento japonês coloca o sujeito em curso: ele resulta da maneira pela qual os grupos sociais e profissionais cada vez mais restritos se encaixam uns nos outros. O sujeito reencontra assim uma realidade, ele é como o último lugar onde se refletem seus pertencimentos.

Esta maneira de construir o sujeito por fora partilhada também pela linguagem, enclina-se a evitar o pronome pessoal, seja na estrutura social ou na “consciência de si” – em japonês, creio eu, jigaishi – se exprime no e pelo sentimento de cada um, torna-o o mais humilde, a participar de uma obra coletiva. Mesmo as ferramentas de origem chinesa, como a serra ou diferentes tipos de talhadeira, não foram adotadas no Japão há seis ou sete séculos senão com um emprego inverso: o artesão volta a ferramenta contra si, ao invés de empurrá-la adiante. Situar-se na chegada, não na partida, de uma ação exercida sobre a matéria revela uma mesma profunda tendência a se definir pelo exterior, em função do lugar que se ocupa em uma família, um grupo profissional, um meio geográfico determinados, e mais geralmente em um país e em uma sociedade. Diríamos que o Japão retornou, como recolocamos uma luva, a recusa de um sujeito para extrair desta negação um efeito positivo, encontrar nisso um princípio dinâmico de organização social que a coloca igualmente ao abrigo de uma renúncia metafísica das religiões orientais, da sociologia estática do confucionismo e do atomismo ao qual o primado do eu expõe as sociedades ocidentais.

A resposta japonesa à segunda recusa é de um gênero diferente. O Japão havia operado o completo retorno de um sistema de pensamento: colocado pelo Ocidente em presença de um outro sistema, ele retém o que lhe convém e separa o resto. Porque. longe de repudiar em bloco o logos tal como o entendiam os Gregos – isto é, a correspondência entre a verdade racional e o mundo – o Japão tomou firmemente o partido do conhecimento científico; ele ocupa mesmo no país o primeiro plano. Mas, tendo sido pego pela vertigem ideológica que o aprisionou durante a primeira metade do século [passado], retornou fiel a si mesmo, abominando as perversões dos logos aos quais o espírito do sistema engendra pelo acesso às sociedades ocidentais, e que exerce suas devastações em tantos países do terceiro mundo.

Lévi-Strauss, Claude [2011]. L’autre face de la Lune. Paris: Ed. du Seuil. pp. 50-53.

A Mídia Livre e o Comum

Faz dois dias, publicaram no site da Universidade Nômade um artigo interessante intitulado “O Comum e a Exploração 2.0”.

O texto inicia com uma crítica ao III Fórum de Mídias Livres, assumindo sua organização como diferente das outras duas edições, onde “não só [se] debateu horizontalmente, como [se] contribuiu para a formulação de uma frente transversal de construção para as novas mídias livres e/ou redes colaborativas. O que se traduziu, por exemplo, na política dos Pontos de Mídia Livre”. Já esse último Fórum teria sido um evento “pré-formatado e pré-pautado”.
 
 
Não sei quanto a vocês, mas se vou a um evento, gostaria sim de saber previamente qual o formato (mesas de discussão, desconferência, rodas, oficinas…) e, claro, ter os assuntos a serem debatidos previamente publicados: trata-se de organização, não imposição como quer fazer parecer o texto. Ademais, os temas escolhidos contemplaram discussões correntes em várias listas e buscaram dar vazão às diferentes experiências de democratização da comunicação, abrangendo desde a luta tradicional por acesso e produção de conteúdo independente à emergente convergência que um protocolo técnico de redes pode possibilitar para o trabalho colaborativo. O debate aconteceu pra quem esteve lá, e também foi transmitido parcialmente pela Internet.
 
 
O artigo segue citando um email “vazado” de uma liderança do coletivo Fora do Eixo para acusar a organização do III FML de “centralizadora”. Contesta a legitimidade do Grupo de Trabalho Executivo de Mídia Livre estabelecido no último fórum, a ausência de comunicação em uma lista de discussão (forum-de-midia-livre@googlegroups.com) e a participação de Pontos de Cultura e hackers na construção do encontro como determinantes para ter “camufladas a hierarquização e a fragmentação por meio da mística do consenso”… Críticas contundentes que até surgiram no espaço do III FML, mas jamais fizeram parte da referida lista de “midialivristas” que, na verdade, não funciona, não promove debate algum, nem recebe ou recebeu qualquer contribuição dos “intelectuais” da Universidade Nômade para a “construção da mídia livre no Brasil”. Se houve esvaziamento da interface burocrática Estado-Mídias Livres, talvez se devesse apontar as condições reais de que dispõem os “midialivristas” para utilizarem recursos públicos para se encontrarem e promoverem suas políticas. Tomar o resultado por origem do problema não me parece a melhor forma de análise sobre o III FML.
O texto é curioso: ataca a burocracia para burocratizar qualquer processo de constituição das mídias livres. Afirma: “Diante disso, vale a pena problematizar o estado do processo de constituição de “mídias livres” e mais em geral o movimento da “cultura” de resistência à restauração no MinC”. Mas afinal, de que mídia livre e que “cultura de resistência” estão falando?
A mídia livre, no Brasil, tem raízes espalhadas em cada canto onde funciona uma rádio livre ou comunitária sem concessão do Estado, lá onde se estão derrubando sites de prefeitura, onde tem um camelô ganhando o seu… A mídia livre que se constituiu como política pública não contempla 1% das  iniciativas de comunicação livre e compartilhamento de arquivos entre redes em plena operação no Brasil. E, ainda que autogeridas e autônomas, essas iniciativas pairam sobre os planos organizados de demandas enquanto Públic0-Não-Estatal, não havendo necessidade de qualquer tutela “intelectual” sobre o que é ou não a construção do comum para esses coletivos auto-determinados.  Tal como apresentada, a crítica ao modelo de organização de um evento como um Fórum – se baseada em “emails” pontuais vazados, e negando-se à participação em plenária, aberta e democrática – soa desonesta e imatura. O Fórum Mundial de Mídia Livre está previsto para acontecer no Rio e deve sim ter sua organização contaminada com os novos processos e lutas sociais, sem o quê estará se expondo à tomada súbita da palavra pelos que têm algo a dizer, direta e concretamente, sobre a forma que se propõe o evento e sobre o conteúdo do que realmente os coletivos/organizações querem colocar em disputa. Mas isso tudo na ágora, no falar de pronto, sob o impulso de quem se levanta (stand up), não como quem é acordado (wake up)…
O texto segue se propondo a criticar o Fora do Eixo, apresentando um debate já bastante conhecido entre as redes de ativismo anti-capitalista. Sob a máxima “quem tá junto tá junto” a forma “empreendedores 24h” seduz como uma alternativa (liberal) de vida, onde o reconhecimento e o crédito operam como nos velhos esquemas das pirâmides de negócio para acúmulo de poder. Mas até onde alcança a teoria crítica sobre esse tufão revolucionário?
Argumenta-se que  FdE é uma experiência radical de transformação do cotidiano, onde os coletivos organizados e autônomos têm mantido suas próprias residências coletivas, alimentação compartilhada, chegando mesmo a terem sua própria moeda de troca. Um processo aberto e em permanente construção cujo horizonte seria a emancipação e a busca de relações mais humanas entre as pessoas.
O caráter ambíguo do FdE, ao contrário das críticas que lhe são desferidas, pontuaria também uma possibilidade de atuar dentro do sistema capitalista almejando relações alternativas às capitalistas, o que poderia lhe conferir lastro em uma filosofia política da pirataria. Porém, de acordo com o texto, o futuro do “pós-rancor” é despolitizado quando se submete à velocidade mercadológica produtiva, valendo-se relações de exploração de trabalho voluntário para atribuir o que chamarei de identidade/pertencimento à forma dominante de socialidade no FdE. Mesmo autônomos, os coletivos locais reproduzem a mesma habilidade de gestão/improviso típicas da chamada nova cultura capitalista (R. Sennet), adaptando novas hierarquias que facilitam a incorporação desses valores como centrais em suas experiências compartilhadas. Verdadeiros “espertos ao contrário”, diria  Estamira, seu trabalho quer ser adaptado e resistente aos novos negócios capitalistas, mas talvez sujeito às mesmas mazelas de controle e submissão ao sistema produtor de desigualdades.
Em uma entrevista de 2008, Toni Negri afirma:
“quando dizemos que nos encontramos hoje em uma sociedade pós-moderna ou pós-fordista, estamos afirmando algo [bastante] preciso, a saber, que os meios de produção se modificaram, as formas de ação se transformaram, e que é necessário então desviar (détourner) as potências de resistência. Mas a primeira coisa a fazer nessa situação é aceitar essa realidade. Saímos da ilusão segundo a qual seria possível [p.565] modificar o mundo a partir da literatura, da tradição ou das formas sociais antigas. Essas novas formas de resistência, é preciso inventá-las. É preciso então desviar todos os instrumentos dos quais dispomos para esse fim.” (“Entretien avec Ton Negri”, Rev. Critique, 2008, 735-36, p.566).
Assim, ao assumir uma crítica aguda sobre a exploração 2.0, não são apenas as relações de trabalho que se busca revelar, mas todo o complexo subjetivo que mobiliza coletivos e redes à colaboração. Para Negri, o capitalismo produz uma assimetria fundamental que o faz pirata de seus pretensos piratas, e se organiza a partir das formas de resistência que a ele se apresentam, onde a única saída é o desvio, “a compreensão do real”, “quando a potência intelectual se combina com a capacidade de transformação.”  Quando se pergunta sobre as relações de socialidade do FdE a abordagem biopolítica quer sobressair nas análises, sem seguir, porém, os rastros de desvios concretos promovidos localmente em relações sociais dentro de um novo campo produtivo, que não apenas reproduz velhas formas, mas as inventa com as ferramentas de que dispõe.
Eis talvez o sentido deste breve artigo: apontar que a adoção da velocidade “pós-rancor” não se situa apenas em um processo alienador de exploração do trabalho, mas antes provoca também uma nova abordagem epistemológica, revelada em uma junção híbrida composta do humano e da técnica, que produz novos arranjos, escapando às oposições clássicas entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade. Trata-se de tentar dar conta de operar além de um modo de funcionamento da teoria que toma os fatos como dados universais e as ideias sobre estes variantes, como defendido pela antropóloga Marylin Strathern (“I wish to demonstrate how ideias behave”) em seu livro After Nature, de 1992. Quero dizer então de uma crítica ao instrumentalismo sobre a técnica, que separada do humano, lhe surge como fonte de dominação, em uma disposição de poder que poderíamos considerar análoga à capacidade de captura do capitalismo. Assim como precisamos da natureza para sobrepor nossas relações biológicas de parentesco (por mais que avancem a reprodução assistida e o melhoramento genético já em embriões) continuamos vivendo sob a premissa de transmissão de propriedade por laço consanguíeno, oriundo de pai e mãe. Mesmo diante da habilitação a novos desejos com a técnica, sua função permanece teoricamente limitada muitas vezes a abordagens pós-natureza, como sobre um fato em “si”, quando tudo na verdade teria sido em algum momento inventado… O pós é, na verdade, o sempre behind, como se o futuro estivesse sempre ali pronto a ser superado por um novo fato da natureza, uma nova descoberta ou controle sobre uma potência da natureza… é o futuro imaginário que já foi (Barbrook 2009), como os cálculos de extração de petróleo em um mundo de aquecimento global.
Ao teorizar sobre o comum,  “na esteira do marxismo operaísta, da filosofia da diferença e da antropologia canibal, [como]  uma organização política das relações produtivas e materiais” o texto aponta possibilidades, mas não caminhos ou práticas: o comum está no ponto de partida.
Mas, afinal, onde está essa tal “ocupação intensiva do espaço e do tempo”, que afirma o comum como “necessariamente antagonista”?
O comum como prática política, ao contrário, me parece forte se necessariamente ambíguo: não havendo como sabotar o comum, e sempre correndo-se o risco de captura pelo capitalismo, são os piratas os que ainda melhor representam o desvio possível da conduta subjetiva programada para o mercado (o compartilhamento de arquivos protegidos por direitos autorais). Como forma de expressão, utilizam software de criptografia, esteganografia, dando nova forma para a noção de troca, dada a condição abundante de circulação de riquezas imateriais.  A alternativa de um hardware livre e pela banda larga nada operam contra a vigilância dos provedores-delatores, sendo consideradas obsoletas por aqueles que investimos em tecnologias do comum, que permitem a apropriação e comunicação comum: estamos na iminência de decidir sobre a tecnologia de rádio digital que vigorará nos próximos 50 anos e a crítica é after Fórum de Mídia Livre, pós-exploração 2.0.
 
O mediativismo, como nos lembra Bifo, “não propõe um uso alternativo das medias no sentido do conteúdo: trata-se antes de curta-circuitar o meio no nivel de sua estrutura, dentro de seu sistema de funcionamento linguístico, tecnológico, de se atacar aos agenciamentos, às interfaces, de reagenciar e de refinalizar o dispositivo, e não somente o conteúdo que ele produz” (Bifo: original em francês). Ainda que pontuando formas subsumidas ao capitalismo, a exploração 2.0 e comum precisam de uma crítica que, de um ponto de partida comum (a liberdade!) sejam capazes não apenas de produzir “seu conteúdo”, mas agenciar processos e expressões que habilitem a tomada generalizada da palavra, em sintonia com a voz que ecoa cada vez mais nas praças e ruas, aproximando um contingente de desempregados a antigas utopias de igualdade e humanismo, mesmo quando esse não mais possui as mesmas bases teóricas para se produzir como teoria, mesmo que cordeiros ainda não tenham ganhado a força de predar como leões.

 

Que progresso?

O tema que proporia hoje, para compor um campo de discussão fundamental para a introdução à Antropologia, é discutir a noção de Progresso, dividido em três abordagens: sobre o progresso da história, a evolução do corpo e o progresso da ciência. E a pergunta é: o que é progresso?

O progresso está entre os pilares do pensamento das sociedades pós-industrais, impondo acelerações incríveis sobre as transformações na maneira de viver e conceber a vida em suas mais distintas formas. Tomando como referência o relativismo cultural, sugiro um debate em torno dos conceitos de raça e cultura, apresentando o conceito de etnocentrismo, como em Lévi-Strauss  [1]. Preparando terreno para estudos sobre a corporalidade e mesmo o aprendizado técnico [2], acredito que seria interessante relacionar As Técnicas Corporais, de Marcel Mauss, um segundo clássico. Por fim, um livro de Latour para discutir a ideia de progresso da ciência, compondo com a crítica de lévi-strauss e a possibilidade de técnica na magia [3] relações de reflexão que introduzam o pesquisador ao pensamento antropológico ao mesmo tempo em que lhe apontem distintos caminhos dentro da disciplina.

LÉVI-STRAUSS, C. Raça e História.
http://pt.scribd.com/doc/31225878/Levy-Strauss-Raca-e-Historia
MAUSS, Marcel , As Técnicas Corporais.
http://www.4shared.com/document/XOBrNpWW/Livro_-_Antropologia_II_-_As_T.html
LATOUR, B. Reflexão sobre o Culto Moderno dos Deuses Fe(i)tiches.
http://pt.scribd.com/doc/15482125/reflexaosobreocultomodernodosdeusesfeitichesbruno-latour

SIMONDON, G. Les limites du progrès humain. 1959.

HamletMachine

Heiner Müller HamletMachine inEnglish.

Outra versão de HamletMachine em Inglês.

Versão em Português: HamletMáquina.

Heiner Müller: Hamletmaschine

translation by Carl Weber
transcribed by Allan Sproule


Radioplay-version:

Music: Einstürzende Neubauten
Director: Blixa Bargeld & Wolfgang Rindfleisch
Production: Rundfunk der DDR & Einstürzende Neubauten
Hamlet: Blixa Bargeld
Ophelia: Gudrun Gut
Chapters: Hans-Werner Kroesinger
Stage Directions: Heiner Müller

Heiner Müller


1: Family Scrapbook

I was Hamlet. I stood at the shore and talked with the surf BLABLA, the ruins of Europe in back of me. The bells tolled the state-funeral, murderer and widow a couple, the councillors goose-stepping behind the highranking carcass’ coffin, bawling with badly paid grief WHO IS THE CORPSE IN THE HEARSE/ABOUT WHOM THERE’S SUCH A HUE AND CRY/’TIS THE CORPSE OF A GREAT/GIVER OF ALMS the lane formed by the populace, creation of the statecraft HE WAS A MAN HE TOOK THEM ALL FOR ALL. I stopped the funeral procession, I pried open the coffin with my sword, the blade broke, yet with the blunt remainder I succeeded, and I dispensed my dead procreator FLESH LIKE TO KEEP THE COMPANY OF FLESH among the bums around me. The mourning turned into rejoicing, the rejoicing into lipsmacking, on top of the empty coffin the murderer humped the widow LET ME HELP YOU UP, UNCLE, OPEN YOUR LEGS, MAMA. I laid down on the ground and listened to the world doing its turns in step with the putrefaction.
I’M GOOD HAMLET GI’ME A CAUSE FOR GRIEF
AH THE WHOLE GLOBE FOR A REAL SORROW
RICHARD THE THIRD I THE PRINCE-KILLING KING
OH MY PEOPLE WHAT HAVE I DONE UNTO THEE
I’M LUGGING MY OVERWEIGHT BRAIN LIKE A HUNCHBACK
CLOWN NUMBER TWO IN THE SPRING OF COMMUNISM
SOMETHING IS ROTTEN IN THIS AGE OF HOPE
LET’S DELVE IN EARTH AND BLOW HER AT THE MOON
Here comes the ghost who made me, the ax still in his skull. Keep your hat on, I know you’ve got one hole too many. I would my mother had one less when you were still of flesh: I would have been spared myself. Women should be sewed up – a world without mothers. We could butcher each other in peace and quiet, and with some confidence, if life gets too long for us or our throats too tight for our screams. What do you want of me? Is one state-funeral not enough for you? You old sponger. Is there no blood on your shoes? What’s your corpse to me? Be glad the handle is sticking out, maybe you’ll go to heaven. What are you waiting for? All the cocks have been butchered. Tomorrow morning has been cancelled.
SHALL I
AS IS THE CUSTOM STICK A PIECE OF IRON INTO
THE NEAREST FLESH OR THE SECOND BEST
TO LATCH UNTO IT SINCE THE WORLD IS SPINNING
LORD BREAK MY NECK WHILE I’M FALLING FROM AN
ALEHOUSE BENCH
Enters Horatio. Confidant of my thoughts so full of blood since the morning is curtained by the empty sky. YOU’LL BE TOO LATE MY FRIEND FOR YOUR PAY- CHECK/NO PART FOR YOU IN THIS MY TRAGEDY. Horatio, do you know me? Are you my friend, Horatio? If you know me how can you be my friend? Do you want to play Polonius who wants to sleep with his daughter, the delightful Ophelia, here she enters right on cue, look how she shakes her ass, a tragic character. HoratioPolonius. I knew you’re an actor. I am too, I’m playing Hamlet. Denmark is a prison, a wall is growing between the two of us. Look what’s growing from that wall. Exit Polonius. My mother the bride. Her breasts a rosebed, her womb the snakepit. Have you forgotten your lines, Mama. I’ll prompt you. WASH THE MURDER OFF YOUR FACE MY PRINCE/AND OFFER THE NEW DENMARK YOUR GLAD EYE. I’ll change you back into a virgin mother, so your king will have a bloodwedding. A MOTHER’S WOMB IS NOT A ONE-WAY STREET. Now, I tie your hands on your back with your bridal veil since I’m sick of your embrace. Now, I tear the wedding dress. Now I smear the shreds of the wedding dress with the dust my father turned into, and with the soiled shreds your face your belly your breasts. Now, I take you, my mother, in his, my father’s invisible tracks. I stifle your scream with my lips. Do you recognise the fruit of your womb? Now go to your wedding, whore, in the broad Danish sunlight which shines on the living and the dead. I want to cram the corpse down the latrine so the palace will choke in royal shit. The let me eat your heart, Ophelia, which weeps my tears.

ImagemhamletMachine 2: The Europe of the Women

Enormous room. Ophelia. Her heart is a clock.

OPHELIA (CHORUS/HAMLET):

I am Ophelia. The one the river didn’t keep. The woman dangling from the rope. The woman with her arteries cut open. The woman with the overdose. SHOW ON HER LIPS. The woman with her head in the gas stove. Yesterday I stopped killing myself. I’m alone with my breasts my thighs my womb. I smash the tools of my captivity, the chair the table the bed. I destroy the battlefield that was my home. I fling open the doors so the wind gets in and the scream of the world. I smash the window. With my bleeding hands I tear the photos of the men I loved and who used me on the bed on the table on the chair on the ground. I set fire to my prison. I throw my clothes into the fire. I wrench the clock that was my heart out of my breast. I walk into the street clothed in my blood.

3: Scherzo

The university of the dead. Whispering and muttering. From their grave-stones (lecterns), the dead philosophers throw their books at Hamlet. Gallery (ballet) of the dead women. The woman dangling from the rope. The woman with her arteries cut open, etc. . . . Hamlet views them with the attitude of a visitor in a museum (theatre). The dead women tear his clothes off his body. Out of an upended coffin, labelled HAMLET 1, step Claudius and Ophelia, the latter dressed and made up like a whore. Striptease by Ophelia.
OPHELIA: Do you want to eat my heart, Hamlet? Laughs.
HAMLET: Face in his hands. I want to be a woman.
Hamlet dresses in Ophelia’s clothes, Ophelia puts the makeup of a whore on his face, Claudius – now Hamlet’s father – laughs without uttering a sound, Ophelia blows Hamlet a kiss and steps with Claudius/HamletFather back into the coffin. Hamlet poses as a whore. An angel, his face at the back of his head: Horatio. He dances with Hamlet.
VOICE(S): From the coffin. What thou killed thou shalt love.
The dance grows faster and wilder. Laughter from within the coffin. On a swing, the madonna with breast cancer. Horatio opens an umbrella, embraces Hamlet. They freeze under the umbrella, embracing. The breast cancer radiates like a sun.

4: Pest in Buda/Battle for Greenland

Space 2, as destroyed by Ophelia. An empty armour, an ax stuck in the helmet.

HAMLET:

The stove is smoking in quarrelsome October
A BAD COLD HE HAD OF IT JUST THE WORST
TIME JUST THE WORST TIME OF THE YEAR FOR A REVOLUTION
Cement in bloom walks through the slums
Doctor Zhivago weeps
For his wolves
SOMETIMES IN WINTER THEY CAME INTO THE VILLAGE
AND TORE APART A PEASANT.
He takes off make-up and costume.
I’m not Hamlet. I don’t take part any more. My words have nothing to tell me anymore. My thoughts suck the blood out of the images. My drama doesn’t happen anymore. Behind me the set is put up. By people who aren’t interested in my drama, for people to whom it means nothing. I’m not interested in it anymore either. I won’t play along anymore. Unnoticed by the actor playing Hamlet, stagehands place a refrigerator and three TV sets on the stage. Humming of the refrigerator. Three TV channels without sound. The set is a monument. It presents a mans who made history, enlarged a hundred times. The petrification of a hope. His name is inter- changeable, the hope has not been fulfilled. The monument is toppled into the dust, razed by those who succeeded him in power three years after the state funeral of the hated and most honoured leader. The stone is inhabited. In the spacy nostrils and auditory canals, in the creases of skin and uniform of the demolished monument, the poorer inhabitants of the capital are dwelling. After an appropriate period, the uprising follows the toppling of the monument. My drama, if it still would happen, would happen in the time of the uprising. The uprising starts with a stroll. Against the traffic rules, during the working hours. The street belongs to the pedestrians. Here and there, a car is turned over. Nightmare of a knife thrower: slowly driving down a one-way street towards an irrevocable parking space surrounded by armed pedestrians. Policemen, if in the way, are swept to the curb. When the procession approaches the government district, it is stopped by a police line. People form groups, speakers arise from them. On the balcony of a government building, a man in badly fitting mufti appears and begins to speak too. When the first stone hits him, he retreats behind the double doors of bullet proof glass. The call for more freedom turns into the cry for the overthrow of the government. People begin to disarm the policemen, to storm two, three buildings, a prison a police precinct an office of the secret police, they string up a dozen henchmen of the rulers by their heels, the government brings in troops, tanks. My place, if my drama would still happen, would be on both sides of the front, between the frontlines, over and above them. I stand in the stench of the crowd and hurl stones at the policemen soldiers tanks bullet-proof glass. I look through the double doors of bullet proof glass at the crowd pressing forward and smell the sweat of my fear. Choking with nausea, I shake my fist at myself who stands behind the bullet proof glass. Shaking with fear and contempt, I see myself in the crowd pressing forward, foaming at the mouth, shaking my fist at myself. I string up my uniformed flesh by my own heels. I am the soldier in the gun turret, my head is empty under the helmet, the stifled scream under the tracks. I am the typewriter. I tie the noose when the ringleaders are strung up, I pull the stool from under their feet, I break my own neck. I am my own prisoner. I feed my own data into the computers. My parts are the spittle and the spittoon the knife and the wound the fang and the throat the neck and the rope. I am the data bank. Bleeding in the crowd. Breathing again behind the double doors. Oozing wordslime in my soundproof blurb over and above the battle. My drama didn’t happen. The script has been lost. The actors put their faces on the rack in the dressing room. In his box, the prompter is rotting. The stuffed corpses in the house don’t stir a hand. I go home and kill the time, at one/with my undivided self. Television The daily nausea Nausea
Of prefabricated babble Of decreed cheerfulness
How do you spell GEMUTLICHKEIT
Give us this day our daily murder
Since thine is nothingness Nausea
Of the lies which are believed
By the liars and nobody else
Nausea
Of the lies which are believed Nausea
Of the mugs of the manipulators marked
By their struggle for positions votes bank accounts
Nausea A chariot armed with scythes sparkling with punchlines
I walk through streets stores Faces
Scarred by the consumers battle Poverty
Without dignity Poverty without the dignity
Of the knife the knuckleduster the clenched fist
The humiliated bodies of women
Hope of generations
Stifled in blood cowardice stupidity
Laughter from dead bellies
Hail Coca Cola
A kingdom
For a murderer
I WAS MACBETH
THE KING HAD OFFERED HIS THIRD MISTRESS TO ME
I KNEW EVERY MOLE ON HER HIPS
RASKOLINIKOV CLOSE TO THE
HEART UNDER THE ONLY COAT THE AX FOR THE
ONLY
SKULL OF THE PAWNBROKER
In the solitude of airports
I breathe again I am
A privileged person My nausea
Is a privilege
Protected by torture
Barbed wire Prisons
Photograph of the author.
I don’t want to eat drink breathe love a woman a man a child an animal anymore.
I don’t want to die anymore. I don’t want to kill anymore.
Tearing of the author’s photograph.
I force open my sealed flesh. I want to dwell in my veins, in the marrow of my bones, in the maze of my skull. I retreat into my entrails. I take my seat in my shit, in my blood. Somewhere bodies are torn apart so I can dwell in my shit. Somewhere bodies are opened so I can be alone with my blood. My thoughts are lesions in my brain. My brain is a scar. I want to be a machine. Arms are grabbing Legs to walk on, no pain no thoughts.
TV screens go black. Blood oozes from the refrigerator. Three naked women: Marx, Lenin, Mao. They speak simultaneously, each one in his own language, the text: THE MAIN POINT IS TO OVERTHROW ALL EXISTING CONDITIONS…The Actor of Hamlet puts on makeup and costume.
HAMLET THE DANE PRINCE AND MAGGOT’S FODDER
STUMBLING FROM HOLE TO HOLE TOWARDS THE FINAL
HOLE LISTLESS IN HIS BACK THE GHOST THAT ONCE
MADE HIM GREEN LIKE OPHELIA’S FLESH IN CHILDBED
AND SHORTLY ERE THE THIRD COCK’S CROW A CLOWN
WILL TEAR THE FOOL’S CAP OFF THE PHILOSOPHER
A BLOATED BLOODHOUND’LL CRAWL INTO THE ARMOUR
He steps into the armour, splits with the ax the heads of Marx, Lenin, Mao. Snow. Ice Age.

Ophelia Elektra 5: Fiercely Enduring/Millenniums/In Fearful Armour

The deep sea. Ophelia in a wheelchair. Fish, debris, dead bodies, and limbs drift by.

OPHELIA:

While two men in white smocks wrap gauze around her and the wheelchair, from bottom to top.
This is Electra speaking. In the heart of darkness. Under the sun of torture. To the capitals of the world. In the name of the victims. I eject all the sperm I have received. I turn the milk of my breasts into lethal poison. I take back the world I gave birth to. I choke between my thighs the world I gave birth to. I bury it in my womb. Down with the happiness of submission. Long live hate and contempt, rebellion and death. When she walks through your bedrooms carrying butcher knives you’ll know the truth.
The men exit. Ophelia remains on stage, motionless in her white wrappings.



ddavis

Pode-se comprar a versão do áudio da peça HamletMáquina, em alemão, aqui.

Disco de Heiner Müller

FemaleMan Meets OncoMouse

donna haraway “In the process of materialized reconfiguration of the kinship between different orders of life, the generative splicing of synthetic DNA and money produces promising transgenic fruit. Specifically, natural kind becomes brand or trade-mark, a sign protecting intellectual property claims in business transactions; we will meet this corporeal reconfiguration again in the score for the techoscience fugue” (Haraway 1997:66)

“The technical, textual, organic, historical, formal, mythic, economic, and political dimensions of entities, actions and worlds implode on the gravity well of technoscience – or perhaps of any word massive enough to bend our attention, warp our certainties, and sustain our lives. Potent categories collapse into each other” (Haraway 1997:68).

OncoMouse” “Implosion” does not imply that technoscience is “socially constructed”, as the “social” were ontologically real and separate. “Implosion” is a claim for heterogeneous and continual construction through historically located practice, where the actors ar not all human”. (Haraway 1997: 68).

“Implosion of dimensions implies loss of clear and distinct identities, but not loss of mass and energy. Maybe to describe what gets sucked into the gravity well of a massive unknown universe we have to risk getting close enough to be permanently warped by the lines of force. Or maybe we already live inside the well, where lines of force have become the sticky threads of our bodies” (Haraway 1997: 69).

“The FemaleMan is generic woman “enterprised up” (Haraway 1997: 70).

“The Female Man is literally a contradiction in kind” (Haraway 1997: 71).

“By insisting on the FemaleMan, I also ascribe the copyright to the figure and the text, that is, to the work rather than to the author. It seems only just by late twentieth century to mistake the creature for the creator and to relocate agency in the aliented object. The history of copyright, with its roots in doctrines of property in the self, invites my confusion of creator and creature by its very effort to draw a clear line between subject and object, original and copy, valued and valueless. I hope the original author will  forgive me” (Haraway 1997: 71).

“The representation of the author as proprietor of the work and of the self rested on the Lockean idea of property wich originated “in acts os appropriation from the general state of nature” (…) “property on this account, was not a social invention but a natural right, exercised by the objectification of the person in his works.” (Haraway 1997: 72).

Resenha de Modest Witness meets OncoMouse by Lynn Randolph

Que tipo de estratégia é a difração?

Donna Haraway: “Primeiro ela é uma metéfora ótica, como espelhamento, mas ela traz consigo mais dinamismo e potência. Padrões d difração se referem a uma história heterogênea, não a originais. Diferentement de reflexões especulares, difrações não deslocam o mesmo para outro lugar. A difração é uma metéfora para um tipo de consciência crítica no final deste milênio cristão bastante doloroso, empenhada em fazer uma diferença e não em repetir a Sagrada Imagem do Mesmo. Interesso-me pela maneira como padrões de difração registram a história da interação, interferência, reforço e diferença. Nesse sentido, “difração” é uma tecnologia narrativa, gráfica, psicológica, espiritual e política para produzir sentidos consequenciais. Por essas razões, eu fecho Modest Witness com o argumento “gráfico” de Lynn Randolph – sua pintura Diffraction [Difração] (1992).”

Thyrza Nichols Googeve: Sendo a “difração” um fenômeno ótico, descreva a diferença entre ela e a reflexão.

DH: “Bem, de início existem certas piadas envolvendo o uso do termo “difração” nesse contexto. Uma corrente do feminismo norte-americano desenfatiza – ou mesmo anatematiza – os olhos e o processo visual e ressalta o oral e o tátil. O especular está sempre sob suspeita. “Espetáculo”, “especular”, “espetacular”, “especulando” são codificados como branco, masculino, poderoso, extraterrestre, cheio de dominação, nhem-nhem-nhem [cai na gargalhada].”

TNG: Entendo o que quer dizer a partir da teoria feminista do cinema.

DH: “E então codificado em termos do problema da cópia e do original, o processo de visão sempre envolve um perder de vista aquilo que se vê. É o mesmo ou foi deslocado para outro lugar? É a cópia realmente uma cópia do original? Se você tem uma reflexão e a imagem é deslocada para outro lugar, ela é tão boa quanto a original? Todas essas teológicas da representação estão enraizadas profundamente num sistema tropológico que enfatiza a visão. Volte ao platonismo, ao evangelho de João, ao Iluminismo. E feministas têm, em parte, reagido a essa herança na qual a luz é fortemente patriarcal – movendo do corpo escuro escuro da mulher para a luz do Pai. Portanto, não é surpreendente que muitos trabalhos feministas enfatizem diferentes sistemas tropológicos, especialmente o oral, aural e tátil. Bom. Não tenho problemas com isso a não ser quando se torna dogmático, quando os olhos são proibidos. Metáforas visuais são muito interessantes. Eu não vou abandoná-las assim como não vou abandonar a democracia, a soberania, a agência, e todas essas heranças poluídas. Acho que a maneiras como eu trabalho é tomando minha própria herança poluída – o ciborgue é uma delas – e tentando retrabalhá-la. O mesmo ocorre com metáforas óticas; eu pego sistemas tropológicos que eu herdei e tento fazer algo com eles que vá contra a corrente. De certa forma, é simplista.”pp. 119-20.

Revista Nada, Maio, n 11, 2008

Org. Pedro Peixoto Ferreira & Emerson Freire