Category Archives: antropologia da técnica

Anonimozegratuitos em terras Argentinas

post humanism O tema das técnicas de reprodução assistida ainda é pouco conhecido, mesmo em uma capital onde os procedimentos técnicos da moderna biomedicina são tidos como os mais avançados. Ao propor a existência de um problema ético envolvendo a fabricação de filhos, não são apenas as transformações sobre a concepção natural do parentesco que ganham lugar, mas a possibilidade de descrever os desejos e necessidades que antes não existiam, mas hoje são compartilhados socialmente e viabilizados com altos investimentos financeiros. Se outrora as técnicas auxiliavam casais inférteis a realizarem seu sonho, hoje convive-se com a formação de famílias homossexuais, que rompem com um certo modelo natural, destacando-se ainda um outro modelo, que se impõe com a procriação monoparental, como no caso das mães solteiras que recorrem aos Bancos de Sêmen: ao projetar sua gravidez independente, muitas vezes se anseia por configurar sua cria mais perfeitamente, escolhendo cor de olhos e cabelo, podendo-se inclusive realizar o Diagnóstico Genético Pré-Implantacional, capaz de localizar aberrações cromossômicas e excluir os embriões dotados de genes conhecidamente causadores de doenças, como câncer de mama e ovário.

Na Argentina, onde existe uma filial do maior Banco de Sêmen do mundo, o CryoBank, faz pouco mais de um ano e meio, aprovaram uma lei que considera a infertilidade uma doença, (Ley 14208) devendo estar prevista em planos de saúde, onde ressalto os seguintes aspectos: ao considerar apenas os casos de infertilidade, a lei permite apenas a doação homóloga de sêmen, para concepção de um filho biológico de um casal heterossexual. Aprovada a lei, seguiu-se sua regulamentação –  o Decreto 2980 -, que estabelece o perfil da paciente, possuindo entre 30 e 40 anos, dando-se prioridade às mulheres que não tenham tido filhos em sua atual relação (ao que parece, supõe-se sempre apenas o interesse de um casal heterossexual).

post humanism A barriga de aluguel, ou a gestação solidária não estão previstas nas leis argentinas, mas um projeto apresentado em agosto de 2011 na Câmara dos Deputados visa legalizar a situação sob algumas normativas.

Uma das Clínicas mais conhecidas de Buenos Aires dedica um texto sobre “tratamiento” às madres solteras, amparando-se nas leis vigentes:

“Cada vez es mayor el número de mujeres solas que, por distintos motivos, eligen esta opción para ver realizado su deseo de ser madres.
En nuestro país, la anterior Ley 35/1988 ya permitía estos tratamientos a toda mujer indicando en su Exposición de Motivos que “…desde el respeto a los derechos de la mujer a fundar su propia familia en los términos que establecen los acuerdos y pactos internacionales garantes de la igualdad de la mujer, la Ley debe eliminar cualquier límite que socave su voluntad de procrear y constituir la forma de familia que considere libre y responsablemente”.
En el artículo 6 de la vigente Ley 14/2006 sobre Técnicas de Reproducción Humana Asistida se indica que: “Toda mujer mayor de 18 años y con plena capacidad de obrar podrá ser receptora o usuaria de las técnicas reguladas en esta Ley, siempre que haya prestado su consentimiento escrito a su utilización de manera libre, consciente y expresa.
La mujer podrá ser usuaria o receptora de las técnicas reguladas en esta Ley con independencia de su estado civil y orientación sexual.”

Embora tudo se passe de forma a assegurar direitos, ao promover a seleccion fenotipica, a seleccion genetica, não se trata de curar a infertilidade, mas de promover um acoplamento humano-máquina que torna indistinto campos antes bem delimitados como cultura e tecnologia. O direito de personalidade consta entre os fundamentos constitucionais de inúmeros países, mas se converte em letra morta face ao desenvolvimento das TRA junto ao modelo tecnocientífico capitalista. Por fim, um novo mercado de produtos humanos se estabelece sob a justificativa da infertilidade, por vezes apresentando o argumento da melhoria da saúde, mas ainda evitando enfrentar a ruptura ontológica que permeia o trabalho técnico sobre o surgimento de novos seres, desprovidos de nome paterno, ou conhecimento sobre sua origem genética.

Em 6 de julho último, a província de Santa Fé aprovou “uma sanción para la ley de infertilidad“, considerando-a uma enfermidade e prevendo seu atendimento como servico de saúde.

Em um artigo publicado na Internet, em agosto de 2012, cujo título é “Donacion de Semen: el padre, un debate pendiente“, trata-se do aumento do uso das técnicas de reprodução assistida no Ocidente, onde proliferam sem qualquer limite legal.

“Sólo en España, el número de mujeres que acuden a un centro en busca de esperma de donante se quintumplicó. En Argentina, si bien no hay datos que alumbren el fenómeno, las clínicas coinciden en un mismo diagnóstico. Las consultas por espermodonación crecieron del 10% al 30% en apenas cinco años, y cada vez más mujeres solas y parejas lesbianas recurren a esta opción. “

post humanism

projeto de lei na argentina
art mexico 2011
lei na col^mbia (1998)

Post Humanism

Donación de esperma

Limitações técnicas e estética: novas mídias e baixa resolução

Faz algumas semanas que trocamos emails entre listas de discussão com o assunto “Abrindo o Código Fechado”, tendo como orientador do debate a comparação entre a produção audiovisual utilizando software livre e software proprietário. Qual não foi minha surpresa ao receber hoje a mensagem da fabs, retomando a discussão que propusemos, apontando evidentemente para direções distintas das rotas e imaginários traçados pelo mercado, apresentando um artigo e um vídeo em uma tela pequena como contribuição ao debate “Estética e Baixa-Resolução”.

Abaixo segue a apresentação do texto assinado por Marcelo B. Conter, que ilustra seu post com o referido vídeo.

Essa discussão me é muito cara, pois fico intrigado com todas as tecnologias de “alta definição” que são vendidas como tais para os consumidores, embora na maior parte do tempo lidamos com hardwares e softwares de baixa definição: os celulares, mp3 players e suas microtelas; os vídeos do YouTube; a maior parte da programação da TV aberta; as câmeras de vídeo de nossas máquinas fotográficas amadoras e câmeras de celular; o formato mp3; câmeras de vigilância; e assim por diante.

Como era de se esperar essa “limitação” técnica acaba por gerar uma estética nova, e artistas acabam por se apropriar dela.”

Leia o artigo clicando aqui.

O tema da “limitação” versus “estética” foi o centro do argumento que pretendi defender junto à French Philosopherassertativa: o software livre é mais evoluído que o software proprietário porque está constantemente aberto à inovações da cultura. Ao contrário do software autômato, privado, parece tecnicamente mais adaptado às necessidades humanas aquele objeto técnico mais aberto, onde já foi possível desenvolver o conhecimento de maneira a compor com a intuição o verdadeiro arranjo humano-máquina não alienado. A esse respeito, não posso evitar a referência à obra de Gilbert Simondon, MEOT 1958, e especialmente o artigo “Os limites do progresso humano”, de 1959, em que o filósofo das técnicas afirma:

  • O problema do progresso humano não pode ser colocado sem fazer intervir o sistema completo da atividade e da existência constituída pelo que o homem produz e pelo que o homem é. Considerar o que o homem produz (linguagem técnica) não pode permitir estimar o progresso humano nem prever sua lei de desenvolvimento em função do tempo, porque a atenção é então unicamente dirigida para uma concretização objetiva da atividade humana
  • Para que o progresso técnico possa ser considerado como progresso humano é preciso que implique uma reciprocidade entre o homem e as concretizações objetivas” (…) “O progresso técnico seria muito mais profundamente um progresso  humano se já fosse um progresso todo das técnicas, compreendida a agricultura, que é por excelência, e em todos os sentidos do termo, a parente pobre.”
  • “Esse progresso seria muito mais lento em cada ponto e muito mais profundo em sua totalidade, logo, muito mais progresso. Transformando todas as condições da vida humana, aumentando a troca de causalidade entre o que o homem produz e o que ele é, o verdadeiro progress0 técnico poderia ser considerado como o que implica um progresso humano se tiver uma estrutura em rede, estando as malhas dessa rede na realidade humana.”
  • “A reflexividade do pensamento é a forma consciente da ressonância interna do conjunto formado pelo homem e a concretização objetiva, e esse pensamento que assegura a continuidade entre as fases sucessivas de progresso, e é apenas ela que pode manter a preocupação com a totalidade, e fazer assim com que o descentramento do homem, paralelo à alienação da concretização objetiva, não se efetue. Hoje em dia o pensamento reflexivo deve particularmente se prender a guiar a atividade técnica do homem em relação aos homens, porque é nesse domínio que existe o maior perigo de alienação, e onde se encontra a ausência de estrutura impedindo o progresso técnico de ser exercido na concretização objetiva sendo parte integrante do progresso humano, que forma sistema com o homem. A questão dos limites do progresso humano não pode ser colocada sem a dos limites do pensamento, porque é ele que aparece como o principal depositário do potencial evolutivo da espécie humana.” (Simondon 1959)
Renato Fabbri
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Mais opções 31 ago, 13:51

Voltando à discussão mais reta.

Temos algumas opções interessantes provenientes
de discussões diversas a respeito. Abaixo escreverei
duas delas.

1) Uma delas é entrar em contato com a FSF e ver se
não topam subsidiar os advogados e as pessoas
envolvidas para entrar na justiça pedindo a abertura dos
códigos.

2) Outra é usar croudfunding para comprar algo como um adobe after
effects ou um vegas. O Blender foi aberto desta forma, não?

Em 25 de agosto de 2011 23:28, Daniel Prado <dtpr@gmail.com> escreveu:

> só um comentário rápido…

> muito das polêmicas que pareceram se devem ao fato de que eu ousei comparar
> a eficiência dos livres com os proprietários. Se eu tivesse listado todas as
> melhorias desejadas sem comparar talvez não tivesse tanto ruído…

> mas tb talvez não tivesse tanto engajamento na thread 😉

> Em 25 de agosto de 2011 19:42, Leo germani <leogerm@gmail.com>escreveu:

>> nossa.. tá rolando um cross post sem dó né?

>> Mas ó, de tudo q foi falado, alguns comentários

>> 1. Moviola era a tecnologia mais avançada no tempo de Eisensten

>> 2. Não li história do Tom Jobim, mas me parece que ele não tinha opção. Um
>> continente o separava do equipamento que ele _gostaria_ de usar, enquanto a
>> galera aqui tem os softwares proprietários todos a mão. Ele não fez uma
>> opção, nem política, nem estética – ele se virou com o que tinha e foi
>> genial.

>> 3. o mesmo vale pros nigerianos (que começaram com VHS, não sei como estão
>> hoje)

>> 4. mercado não é o oposto de produção artística/autoral. As coisas estão
>> juntas e misturadas.

>> 5. Quem não tá na prática diária, produzindo, experimentando pra valer,
>> tem que ser mais humilde na hora de cagar regras

>> 6. Comentei em outro email o problema das patentes de software nessa área
>> e ninguém. Esse é um problema muito sério e que tem que ser combatido. Nessa
>> área, especificamente, eu boto fé que muita gente que poderia investir não
>> investe pq tem medo de tomar processo na cabeça

>> Leo,,

>> 2011/8/25 Philipe Ribeiro <ribeiro.phil@gmail.com>

>>> Nunca consegui ter a mesma eficiência que tenho no Cinelerra usando
>>> qualquer um desses… Você sabe se algum desses (ou qualquer outro) tá
>>> redondo em HD? Só preciso capturar em alta, montar com corte seco e
>>> renderizar usando um codec similar ao h264… se algum desses fizer isso,
>>> mesmo que eu demore mais na edição, vai estar melhor que o nosso querido
>>> Cinelerra…

>>> Obs: uso juntaDados =)

>>> Em 25 de agosto de 2011 16:22, Marcelo Soares Souza <
>>> marc@juntadados.org> escreveu:

>>>>   E você já experimentou o Kdenlive, OpenShot, PiTiVi?

>>>> Em 25 de agosto de 2011 16:19, Philipe Ribeiro <
>>>> ribeiro.phil@gmail.com> escreveu:

>>>>> Alta resolução não é sin6onimo de cinema, mas hoje se você pega trampos
>>>>> pro cinema os caras vão querer que sejam finalizados em alta e creio se faz
>>>>> necessário correr atrás para que o Cinelerra comece a ficar redondo em alta
>>>>> antes que entre em desuso, infelizmente.

>>>> —
>>>> Abraços
>>>> Marcelo Soares Souza
>>>> http://marcelo.juntadados.org

>>>  —
>>> Essa mensagem foi postada no grupo:
>>> http://groups.google.com/group/gtculturadigital?hl=pt?hl=pt-BR

>>> Esse grupo está ligado ao Movimento Cultura Digital:
>>> http://culturadigital.br/movimento

Enquanto o imaginário político se volta para as limitações econômicas como se atreladas ao que de mais evoluído tecnicamente já foi produzido, inúmeras comunidades de desenvolvedores de software livre continuam abertas e propondo novas formas de produzir, licenciar e distribuir software.

Brazilian Maestro Como exemplo da relação “estética x progre$$o tecnológico”, citei a tese dos professores da Unicamp, Marcos Nobre e José Roberto Zan, de que a criação da ruptura estética da bossa nova está intimamente ligada à limitação técnica de uso das mesas de som com poucos canais, sobretudo na composição do maestro Tom Jobim, ocasionando aquilo que ficou conhecido com a simplicidade de dimdomdindin.

  • PROFISSIONAL Jobim se via antes de mais nada como um profissional da música, uma novidade no panorama da música brasileira de então. E vê nos festivais um evento pernicioso para a profissão: “Acontece que a noite no Rio desapareceu. Antigamente, os músicos tinham emprego. Agora, não. Só tem os festivais“.
  • “A perspectiva do profissional permeia todas as entrevistas e depoimentos. E acaba por ressaltar elementos que podiam e ainda podem passar por laterais e secundários. Exatamente porque não se pensa Tom Jobim como o “profissional da música” que queria ser. Em uma das inúmeras vezes em que é confrontado com as “acusações” de plagiar compositores ou de ser pouco “brasileiro”, o profissional orgulhoso do seu ofício responde apontando para a partitura de Chopin em cima do piano: “Olha aqui: o negócio de você fazer um acorde menor e aumentar ou diminuir a quinta é mais velho do que o mundo. O ‘Prelúdio nº 4’, de Chopin, está aí em cima do piano para provar que Tom Jobim não é original, Baden Powell não é original, mas somos todos originais porque estamos na restinga da Marambaia e o ritmo é samba. E o meu negócio é samba, está entendendo?“.
  • DEPOIMENTO Daí a importância do extenso depoimento do Museu da Imagem e do Som do Rio, em 1967. Depoimento coletivo, mas claramente centrado em Jobim, do qual participaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Ricardo Cravo Albin, Oscar Niemeyer, Dori Caymmi e Raimundo Wanderley. Quando, para ganhar a vida, Tom se integrou ao meio da música popular no início dos anos 1950, além de atuar como músico da noite, passou a trabalhar em gravações na Continental Discos como arranjador e regente de orquestras. Naqueles anos, novas tecnologias desenvolvidas no pós-Guerra estavam revolucionando a indústria fonográfica; entre elas, o acetato, o multicanais, a estereofonia e o hi-fi (alta fidelidade). Jobim lembra que no período pré-bossa nova ainda se gravava em 78 rpm, e reconhece, um tanto melancolicamente, o “nível precário” das condições de gravação no Brasil, o que teria levado a “uma série de problemas na música”. Em muitos outros campos, como o cinema ou as artes plásticas no Brasil -basta pensar no cinema novo, por exemplo-, saltos de qualidade estética também estiveram intimamente ligados à exploração criativa das condições precárias de produção. O que mostra que, para entender a canção, é preciso mais do que música e letra. É preciso entender o país. E as condições concretas em que a canção foi e é produzida.”
  • “Como resume Jobim no depoimento de 1967, em função da precariedade dos nossos estúdios foi feita uma certa “triagem, necessidade de se trabalhar com menos instrumentos […] Os americanos estão gravando com oito canais -é possível que com oito canais você possa gravar a escola de samba mesmo como ela é. Porque se você pegar a escola de samba e colocar dentro do estúdio pra gravar, soa como um mar em tempestade […]. É por isso que a bossa nova -ela teve raízes seríssimas no samba- teve aquela necessidade de limpar um pouco”

A canção e a vaiaA morte da canção e o imortal Tom Jobim

JOSÉ ROBERTO ZAN
MARCOS NOBRE

  • Em 1930, Almirante levou para o estúdio de gravação, pela primeira vez, tamborins, cuícas, surdos, pandeiros e reco-recos. Com isso, colocou a nova concepção de arranjo rítmico da música popular brasileira em compasso com os novos meios elétricos de gravação disponíveis. Mais tarde, já sob o Estado Novo, Radamés Gnatalli vestiu o samba de casaca, com arranjos orquestrais sofisticados que pretendiam nos colocar em sintonia com o glamour hollywoodiano. Essas tentativas de colocar a música popular brasileira em compasso com os meios tecnológicos de produção disponíveis deram um salto inventivo no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial. Nos dois primeiros anos do governo Dutra, a farra de importações que queimaram todas as reservas internacionais acumuladas no período anterior trouxe discos com um jazz muito mais sofisticado e complexo. Como conseguir estar à altura dessas novas formas de produção musical com as limitações técnicas de nossos estúdios de gravação?
  • A resposta de Tom Jobim foi a de uma simplificação genial. Nas palavras dele: “A harmonia, de uma maneira geral, simplificou-se. Simplificou-se e enriqueceu-se. Muitas notas foram tiradas dos acordes: tirou-se as quintas que já soavam no harmônico do baixo etc. Por causa da precariedade das gravações de nossos estúdios. A gente tinha vontade de que se ouvissem as vozes que a gente queria que fossem ouvidas (…). Não adiantava aquela massa amorfa de cem violinos. Então veio aquela economia total: uma flautinha, quatro violinos tocando em uníssono, na maior parte das vezes, numa tentativa de fazer chegar ao ouvinte uma idéia” 2.
  • “E, cantor maior da Bossa Nova, João Gilberto, reduziu essa simplificação ao mínimo. Como disse Baden Powell: “Eu acho que o João Gilberto fez o seguinte: ficou só com os tamborins da escola de samba, sabe? É o troço mais nítido que você ouve no meio daquilo tudo. E a parte mais embrulhada ele tirou. Pode ser que a idéia dele nunca tenha sido essa, mas o resultado acho que foi: ficou um negócio mais limpo”. Nossas limitações técnicas foram impulso decisivo de todas essas inovações. E não apenas na música popular.”. (NOBRE, Marcos. A Última Ficha Caiu).

HamletMachine

Heiner Müller HamletMachine inEnglish.

Outra versão de HamletMachine em Inglês.

Versão em Português: HamletMáquina.

Heiner Müller: Hamletmaschine

translation by Carl Weber
transcribed by Allan Sproule


Radioplay-version:

Music: Einstürzende Neubauten
Director: Blixa Bargeld & Wolfgang Rindfleisch
Production: Rundfunk der DDR & Einstürzende Neubauten
Hamlet: Blixa Bargeld
Ophelia: Gudrun Gut
Chapters: Hans-Werner Kroesinger
Stage Directions: Heiner Müller

Heiner Müller


1: Family Scrapbook

I was Hamlet. I stood at the shore and talked with the surf BLABLA, the ruins of Europe in back of me. The bells tolled the state-funeral, murderer and widow a couple, the councillors goose-stepping behind the highranking carcass’ coffin, bawling with badly paid grief WHO IS THE CORPSE IN THE HEARSE/ABOUT WHOM THERE’S SUCH A HUE AND CRY/’TIS THE CORPSE OF A GREAT/GIVER OF ALMS the lane formed by the populace, creation of the statecraft HE WAS A MAN HE TOOK THEM ALL FOR ALL. I stopped the funeral procession, I pried open the coffin with my sword, the blade broke, yet with the blunt remainder I succeeded, and I dispensed my dead procreator FLESH LIKE TO KEEP THE COMPANY OF FLESH among the bums around me. The mourning turned into rejoicing, the rejoicing into lipsmacking, on top of the empty coffin the murderer humped the widow LET ME HELP YOU UP, UNCLE, OPEN YOUR LEGS, MAMA. I laid down on the ground and listened to the world doing its turns in step with the putrefaction.
I’M GOOD HAMLET GI’ME A CAUSE FOR GRIEF
AH THE WHOLE GLOBE FOR A REAL SORROW
RICHARD THE THIRD I THE PRINCE-KILLING KING
OH MY PEOPLE WHAT HAVE I DONE UNTO THEE
I’M LUGGING MY OVERWEIGHT BRAIN LIKE A HUNCHBACK
CLOWN NUMBER TWO IN THE SPRING OF COMMUNISM
SOMETHING IS ROTTEN IN THIS AGE OF HOPE
LET’S DELVE IN EARTH AND BLOW HER AT THE MOON
Here comes the ghost who made me, the ax still in his skull. Keep your hat on, I know you’ve got one hole too many. I would my mother had one less when you were still of flesh: I would have been spared myself. Women should be sewed up – a world without mothers. We could butcher each other in peace and quiet, and with some confidence, if life gets too long for us or our throats too tight for our screams. What do you want of me? Is one state-funeral not enough for you? You old sponger. Is there no blood on your shoes? What’s your corpse to me? Be glad the handle is sticking out, maybe you’ll go to heaven. What are you waiting for? All the cocks have been butchered. Tomorrow morning has been cancelled.
SHALL I
AS IS THE CUSTOM STICK A PIECE OF IRON INTO
THE NEAREST FLESH OR THE SECOND BEST
TO LATCH UNTO IT SINCE THE WORLD IS SPINNING
LORD BREAK MY NECK WHILE I’M FALLING FROM AN
ALEHOUSE BENCH
Enters Horatio. Confidant of my thoughts so full of blood since the morning is curtained by the empty sky. YOU’LL BE TOO LATE MY FRIEND FOR YOUR PAY- CHECK/NO PART FOR YOU IN THIS MY TRAGEDY. Horatio, do you know me? Are you my friend, Horatio? If you know me how can you be my friend? Do you want to play Polonius who wants to sleep with his daughter, the delightful Ophelia, here she enters right on cue, look how she shakes her ass, a tragic character. HoratioPolonius. I knew you’re an actor. I am too, I’m playing Hamlet. Denmark is a prison, a wall is growing between the two of us. Look what’s growing from that wall. Exit Polonius. My mother the bride. Her breasts a rosebed, her womb the snakepit. Have you forgotten your lines, Mama. I’ll prompt you. WASH THE MURDER OFF YOUR FACE MY PRINCE/AND OFFER THE NEW DENMARK YOUR GLAD EYE. I’ll change you back into a virgin mother, so your king will have a bloodwedding. A MOTHER’S WOMB IS NOT A ONE-WAY STREET. Now, I tie your hands on your back with your bridal veil since I’m sick of your embrace. Now, I tear the wedding dress. Now I smear the shreds of the wedding dress with the dust my father turned into, and with the soiled shreds your face your belly your breasts. Now, I take you, my mother, in his, my father’s invisible tracks. I stifle your scream with my lips. Do you recognise the fruit of your womb? Now go to your wedding, whore, in the broad Danish sunlight which shines on the living and the dead. I want to cram the corpse down the latrine so the palace will choke in royal shit. The let me eat your heart, Ophelia, which weeps my tears.

ImagemhamletMachine 2: The Europe of the Women

Enormous room. Ophelia. Her heart is a clock.

OPHELIA (CHORUS/HAMLET):

I am Ophelia. The one the river didn’t keep. The woman dangling from the rope. The woman with her arteries cut open. The woman with the overdose. SHOW ON HER LIPS. The woman with her head in the gas stove. Yesterday I stopped killing myself. I’m alone with my breasts my thighs my womb. I smash the tools of my captivity, the chair the table the bed. I destroy the battlefield that was my home. I fling open the doors so the wind gets in and the scream of the world. I smash the window. With my bleeding hands I tear the photos of the men I loved and who used me on the bed on the table on the chair on the ground. I set fire to my prison. I throw my clothes into the fire. I wrench the clock that was my heart out of my breast. I walk into the street clothed in my blood.

3: Scherzo

The university of the dead. Whispering and muttering. From their grave-stones (lecterns), the dead philosophers throw their books at Hamlet. Gallery (ballet) of the dead women. The woman dangling from the rope. The woman with her arteries cut open, etc. . . . Hamlet views them with the attitude of a visitor in a museum (theatre). The dead women tear his clothes off his body. Out of an upended coffin, labelled HAMLET 1, step Claudius and Ophelia, the latter dressed and made up like a whore. Striptease by Ophelia.
OPHELIA: Do you want to eat my heart, Hamlet? Laughs.
HAMLET: Face in his hands. I want to be a woman.
Hamlet dresses in Ophelia’s clothes, Ophelia puts the makeup of a whore on his face, Claudius – now Hamlet’s father – laughs without uttering a sound, Ophelia blows Hamlet a kiss and steps with Claudius/HamletFather back into the coffin. Hamlet poses as a whore. An angel, his face at the back of his head: Horatio. He dances with Hamlet.
VOICE(S): From the coffin. What thou killed thou shalt love.
The dance grows faster and wilder. Laughter from within the coffin. On a swing, the madonna with breast cancer. Horatio opens an umbrella, embraces Hamlet. They freeze under the umbrella, embracing. The breast cancer radiates like a sun.

4: Pest in Buda/Battle for Greenland

Space 2, as destroyed by Ophelia. An empty armour, an ax stuck in the helmet.

HAMLET:

The stove is smoking in quarrelsome October
A BAD COLD HE HAD OF IT JUST THE WORST
TIME JUST THE WORST TIME OF THE YEAR FOR A REVOLUTION
Cement in bloom walks through the slums
Doctor Zhivago weeps
For his wolves
SOMETIMES IN WINTER THEY CAME INTO THE VILLAGE
AND TORE APART A PEASANT.
He takes off make-up and costume.
I’m not Hamlet. I don’t take part any more. My words have nothing to tell me anymore. My thoughts suck the blood out of the images. My drama doesn’t happen anymore. Behind me the set is put up. By people who aren’t interested in my drama, for people to whom it means nothing. I’m not interested in it anymore either. I won’t play along anymore. Unnoticed by the actor playing Hamlet, stagehands place a refrigerator and three TV sets on the stage. Humming of the refrigerator. Three TV channels without sound. The set is a monument. It presents a mans who made history, enlarged a hundred times. The petrification of a hope. His name is inter- changeable, the hope has not been fulfilled. The monument is toppled into the dust, razed by those who succeeded him in power three years after the state funeral of the hated and most honoured leader. The stone is inhabited. In the spacy nostrils and auditory canals, in the creases of skin and uniform of the demolished monument, the poorer inhabitants of the capital are dwelling. After an appropriate period, the uprising follows the toppling of the monument. My drama, if it still would happen, would happen in the time of the uprising. The uprising starts with a stroll. Against the traffic rules, during the working hours. The street belongs to the pedestrians. Here and there, a car is turned over. Nightmare of a knife thrower: slowly driving down a one-way street towards an irrevocable parking space surrounded by armed pedestrians. Policemen, if in the way, are swept to the curb. When the procession approaches the government district, it is stopped by a police line. People form groups, speakers arise from them. On the balcony of a government building, a man in badly fitting mufti appears and begins to speak too. When the first stone hits him, he retreats behind the double doors of bullet proof glass. The call for more freedom turns into the cry for the overthrow of the government. People begin to disarm the policemen, to storm two, three buildings, a prison a police precinct an office of the secret police, they string up a dozen henchmen of the rulers by their heels, the government brings in troops, tanks. My place, if my drama would still happen, would be on both sides of the front, between the frontlines, over and above them. I stand in the stench of the crowd and hurl stones at the policemen soldiers tanks bullet-proof glass. I look through the double doors of bullet proof glass at the crowd pressing forward and smell the sweat of my fear. Choking with nausea, I shake my fist at myself who stands behind the bullet proof glass. Shaking with fear and contempt, I see myself in the crowd pressing forward, foaming at the mouth, shaking my fist at myself. I string up my uniformed flesh by my own heels. I am the soldier in the gun turret, my head is empty under the helmet, the stifled scream under the tracks. I am the typewriter. I tie the noose when the ringleaders are strung up, I pull the stool from under their feet, I break my own neck. I am my own prisoner. I feed my own data into the computers. My parts are the spittle and the spittoon the knife and the wound the fang and the throat the neck and the rope. I am the data bank. Bleeding in the crowd. Breathing again behind the double doors. Oozing wordslime in my soundproof blurb over and above the battle. My drama didn’t happen. The script has been lost. The actors put their faces on the rack in the dressing room. In his box, the prompter is rotting. The stuffed corpses in the house don’t stir a hand. I go home and kill the time, at one/with my undivided self. Television The daily nausea Nausea
Of prefabricated babble Of decreed cheerfulness
How do you spell GEMUTLICHKEIT
Give us this day our daily murder
Since thine is nothingness Nausea
Of the lies which are believed
By the liars and nobody else
Nausea
Of the lies which are believed Nausea
Of the mugs of the manipulators marked
By their struggle for positions votes bank accounts
Nausea A chariot armed with scythes sparkling with punchlines
I walk through streets stores Faces
Scarred by the consumers battle Poverty
Without dignity Poverty without the dignity
Of the knife the knuckleduster the clenched fist
The humiliated bodies of women
Hope of generations
Stifled in blood cowardice stupidity
Laughter from dead bellies
Hail Coca Cola
A kingdom
For a murderer
I WAS MACBETH
THE KING HAD OFFERED HIS THIRD MISTRESS TO ME
I KNEW EVERY MOLE ON HER HIPS
RASKOLINIKOV CLOSE TO THE
HEART UNDER THE ONLY COAT THE AX FOR THE
ONLY
SKULL OF THE PAWNBROKER
In the solitude of airports
I breathe again I am
A privileged person My nausea
Is a privilege
Protected by torture
Barbed wire Prisons
Photograph of the author.
I don’t want to eat drink breathe love a woman a man a child an animal anymore.
I don’t want to die anymore. I don’t want to kill anymore.
Tearing of the author’s photograph.
I force open my sealed flesh. I want to dwell in my veins, in the marrow of my bones, in the maze of my skull. I retreat into my entrails. I take my seat in my shit, in my blood. Somewhere bodies are torn apart so I can dwell in my shit. Somewhere bodies are opened so I can be alone with my blood. My thoughts are lesions in my brain. My brain is a scar. I want to be a machine. Arms are grabbing Legs to walk on, no pain no thoughts.
TV screens go black. Blood oozes from the refrigerator. Three naked women: Marx, Lenin, Mao. They speak simultaneously, each one in his own language, the text: THE MAIN POINT IS TO OVERTHROW ALL EXISTING CONDITIONS…The Actor of Hamlet puts on makeup and costume.
HAMLET THE DANE PRINCE AND MAGGOT’S FODDER
STUMBLING FROM HOLE TO HOLE TOWARDS THE FINAL
HOLE LISTLESS IN HIS BACK THE GHOST THAT ONCE
MADE HIM GREEN LIKE OPHELIA’S FLESH IN CHILDBED
AND SHORTLY ERE THE THIRD COCK’S CROW A CLOWN
WILL TEAR THE FOOL’S CAP OFF THE PHILOSOPHER
A BLOATED BLOODHOUND’LL CRAWL INTO THE ARMOUR
He steps into the armour, splits with the ax the heads of Marx, Lenin, Mao. Snow. Ice Age.

Ophelia Elektra 5: Fiercely Enduring/Millenniums/In Fearful Armour

The deep sea. Ophelia in a wheelchair. Fish, debris, dead bodies, and limbs drift by.

OPHELIA:

While two men in white smocks wrap gauze around her and the wheelchair, from bottom to top.
This is Electra speaking. In the heart of darkness. Under the sun of torture. To the capitals of the world. In the name of the victims. I eject all the sperm I have received. I turn the milk of my breasts into lethal poison. I take back the world I gave birth to. I choke between my thighs the world I gave birth to. I bury it in my womb. Down with the happiness of submission. Long live hate and contempt, rebellion and death. When she walks through your bedrooms carrying butcher knives you’ll know the truth.
The men exit. Ophelia remains on stage, motionless in her white wrappings.



ddavis

Pode-se comprar a versão do áudio da peça HamletMáquina, em alemão, aqui.

Disco de Heiner Müller

FemaleMan Meets OncoMouse

donna haraway “In the process of materialized reconfiguration of the kinship between different orders of life, the generative splicing of synthetic DNA and money produces promising transgenic fruit. Specifically, natural kind becomes brand or trade-mark, a sign protecting intellectual property claims in business transactions; we will meet this corporeal reconfiguration again in the score for the techoscience fugue” (Haraway 1997:66)

“The technical, textual, organic, historical, formal, mythic, economic, and political dimensions of entities, actions and worlds implode on the gravity well of technoscience – or perhaps of any word massive enough to bend our attention, warp our certainties, and sustain our lives. Potent categories collapse into each other” (Haraway 1997:68).

OncoMouse” “Implosion” does not imply that technoscience is “socially constructed”, as the “social” were ontologically real and separate. “Implosion” is a claim for heterogeneous and continual construction through historically located practice, where the actors ar not all human”. (Haraway 1997: 68).

“Implosion of dimensions implies loss of clear and distinct identities, but not loss of mass and energy. Maybe to describe what gets sucked into the gravity well of a massive unknown universe we have to risk getting close enough to be permanently warped by the lines of force. Or maybe we already live inside the well, where lines of force have become the sticky threads of our bodies” (Haraway 1997: 69).

“The FemaleMan is generic woman “enterprised up” (Haraway 1997: 70).

“The Female Man is literally a contradiction in kind” (Haraway 1997: 71).

“By insisting on the FemaleMan, I also ascribe the copyright to the figure and the text, that is, to the work rather than to the author. It seems only just by late twentieth century to mistake the creature for the creator and to relocate agency in the aliented object. The history of copyright, with its roots in doctrines of property in the self, invites my confusion of creator and creature by its very effort to draw a clear line between subject and object, original and copy, valued and valueless. I hope the original author will  forgive me” (Haraway 1997: 71).

“The representation of the author as proprietor of the work and of the self rested on the Lockean idea of property wich originated “in acts os appropriation from the general state of nature” (…) “property on this account, was not a social invention but a natural right, exercised by the objectification of the person in his works.” (Haraway 1997: 72).

Resenha de Modest Witness meets OncoMouse by Lynn Randolph

Rádios Livres, Mídias Livres e MediaLabs

O MONOPÓLIO DE FATO

“Nós nos perguntamos: de que monopólio se trata?
De ora em diante, nós podemos responder. Por trás dos status, das diferentes situações, se esconde uma realidade única: a realidade de um poder que exerce um controle quase absoluto sobre as rádios em favor da burguesia. Por trás do monopólio legal se esconde, infinitamente mais poderoso, o monopólio de fato da burguesia sobre as ondas.
(…)
Mas este monopólio de fato não reside unicamente no controle da informação. Em maior profundidade, ele marca o lugar que o rádio ocupa na sociedade, a maneira com que ele é feito e concebido. Alto-falante da sociedade do espetáculo sedimentado da vida real. Produtor de mitos, heróis, anjos e diabos que são os totens e os tabus dos tempos modernos. Banhado por uma nuvem de tecnicismo que se quer imcompreensível, logo incontrolável, este rádio quer nos desviar da ação coletiva tentando destinar-se a cada um de nós individualmente. Ele desenvolve a rotina, a passividade, a uniformidade. Ele é o complemento indispensável do universo do cimento, do betume, da angústia e da solidão.”

“O movimento popular tem interesse em lutar pela mais completa liberdade de expressão, não só pela sua regulamentação. Deve-se então tomar a inicitiva de quebrar o monopólio legal, biombo do monopólio de fato da burguesia, e de construir nessa luta uma relação de forças tal que esse combate não seja completamente recuperado, travestido, traído no momento em que virá a codificação legal.

Segundo nós, hoje a questão de ser ou de não ser a favor do monopólio legal está ultrapassada. A questão que se coloca é de saber se a burguesia vai poder reforçar seu monopólio de fato ou se, ao contrário, o movimento popular va aproveitar essa ocasião para um novo direito, para se dotar de meios de informação e de cultura que lhes são próprios. Se nós sustentamos esta solução, não há nada mais urgente que fazer tudo para que se desenvolva e viva o movimento das rádios livres de expressão popular.”

“Em todo lugar a palvra está sendo roubada, escondida, deturpada, truncada, falsificada: aqueles que fazem a vida real, que trabalham, que lutam, que sonham são sistematicamente evacuados das ondas.”

Para responder ao confisco da palavra monopolizada pela burguesia, as rádios livres entoam seus primeiros balbucios: uma palavra enfim reencontrada. Pareceu-nos possível pegar ao revés a informação oficial e fazer com que uma outra verdade fosse ouvida, livre do dinheiro e do poder. A contra-informação, o reestabelecimento de uma verdade, é uma inquietação e um dever de expressão de uma rádio livre. Mas o jornalismo profissional em busca de um espaço livre, e lucrativo, que serve à expressão direta de múltiplas revoltas contra a opressão e a exploração mostra que tem lugar para uma multitude de projetos de rádio diferentes ou contraditórios. Tentemos levantar a ambigüidade da palavra “livre” de rádio livre, explicando o que é uma rádio livre popular.”

“Para que a expressão seja livre e realmente condizente com as práticas múltiplas, temos que recusar a delegar o poder, delegando nossa palavra: explodir o filtro do jornalismo profissional que esteriliza o vivido, explodir o filtro da linguagem política que se coloca no saber, explodir os canhões de uma estética feita para deturpar as múltiplas práticas que criarão sua própria linguagem.”

A rádio não deve ser uma empresa de informação, até mesmo de “esquerda”, que distribui os tempos de palavra parcimoniosamente, caridosa ou generosamente, mas deve ser um lugar aberto em que todas as expressões das práticas populares se apropriem e se desenvolvam. Ninguém pode se dar o direito de dar a palavra, basta tomá-la. Somente a expressão direta permite que nos demos conta de uma realidade, de um fato vivido, daqueles que os suportam e os transformam; a expressão direta é a única garantia contra as tentações de pequeno chefe poderoso que dorme com um olho aberto voltado pra cada um de nós.”

As práticas múltiplas, espalhadas, marginalizadas devem investir no espaço radiofônico para se confrontar, se confortar, se expressar, para que a multiplicidade, a diversidade se tornem a expressão de um movimento global. Se o fracionamento das práticas múltiplas enriquece o movimento por sua diversidade, ele enfraquece o impacto: sua expressão coordenada em um mesmo local respeita sua diversidade, mas amplifica sua realidade e enriquece seu espaço pela confrontação das experiências”

Práticas múltiplas e diversas necessitam de fato de rádios diversas e numerosas. Transmissores potentes aqui e ali não responderiam a essa necessidade, a palavra seria então cuidadosamente selecionada, limitada por pretextos técnicos, imperativos do tempo… e recriariam a centralização com a qual tanto sofremos.”


“Não nos deixemos impressionar pelos técnicos que replicarão: “Vai ser a anarquia sobre as ondas, vamos nos “interferir” mutuamente.” Trata-se aqui somente de argúcia para justificar “cientificamente” o medo, a rejeição, bem políticos, de assistir à tomada da palavra se generalizar. Nós sabemos que, de um mesmo ponto, mais de cem estações podem transmitir sem interferências e que dez [rádios] encontram lugar sobre um megahertz, sendo trezentas sobre a banda disponível.

Uma rádio livre popular não pode ser a bugiganga de alguns, ela deve ser parte de uma realidade do movimento: redes de sustentação devem se constituir o mais largamente possível. Essas redes podem nascer a partir de estruturas pré-existentes: seções sindicais, associações de bairro, associações culturais, grupos de mulheres, grupos de intervenção sobre terrenos específicos (militar, prisão, escola, psiquiatria, justiça…) que devem levar em conta a elaboração de transmissões de conteúdo próprio, avançando o máximo possível no processo técnico, a fim de não correr o risco de ser desapropriado de sua palavra.

Essas redes seriam múltiplas e diversas: não se trata de criar rádios de partidos que não fariam senão repetir com insistência um discurso político, mas de se situar sobre um plano mais amplo de debate onde os partidos têm seu lugar.

Essas práticas sociais organizadas não saberiam ter exclusividade sobre a elaboração da palavra, sobre as rádios livres populares: toda vivência, mesmo individual, de uma opressão, toda tentativa de outra vida, toda criação ou recriação é parte constituinte das práticas múltiplas, logo das rádios.

O espaço assim criado não é somente a expressão daquele que é contra, mas se faz eco de todas as experiências para um novo cotidiano, diferente.”

Rádios Libres, 1978