A Mídia Livre e o Comum

Faz dois dias, publicaram no site da Universidade Nômade um artigo interessante intitulado “O Comum e a Exploração 2.0”.

O texto inicia com uma crítica ao III Fórum de Mídias Livres, assumindo sua organização como diferente das outras duas edições, onde “não só [se] debateu horizontalmente, como [se] contribuiu para a formulação de uma frente transversal de construção para as novas mídias livres e/ou redes colaborativas. O que se traduziu, por exemplo, na política dos Pontos de Mídia Livre”. Já esse último Fórum teria sido um evento “pré-formatado e pré-pautado”.
 
 
Não sei quanto a vocês, mas se vou a um evento, gostaria sim de saber previamente qual o formato (mesas de discussão, desconferência, rodas, oficinas…) e, claro, ter os assuntos a serem debatidos previamente publicados: trata-se de organização, não imposição como quer fazer parecer o texto. Ademais, os temas escolhidos contemplaram discussões correntes em várias listas e buscaram dar vazão às diferentes experiências de democratização da comunicação, abrangendo desde a luta tradicional por acesso e produção de conteúdo independente à emergente convergência que um protocolo técnico de redes pode possibilitar para o trabalho colaborativo. O debate aconteceu pra quem esteve lá, e também foi transmitido parcialmente pela Internet.
 
 
O artigo segue citando um email “vazado” de uma liderança do coletivo Fora do Eixo para acusar a organização do III FML de “centralizadora”. Contesta a legitimidade do Grupo de Trabalho Executivo de Mídia Livre estabelecido no último fórum, a ausência de comunicação em uma lista de discussão (forum-de-midia-livre@googlegroups.com) e a participação de Pontos de Cultura e hackers na construção do encontro como determinantes para ter “camufladas a hierarquização e a fragmentação por meio da mística do consenso”… Críticas contundentes que até surgiram no espaço do III FML, mas jamais fizeram parte da referida lista de “midialivristas” que, na verdade, não funciona, não promove debate algum, nem recebe ou recebeu qualquer contribuição dos “intelectuais” da Universidade Nômade para a “construção da mídia livre no Brasil”. Se houve esvaziamento da interface burocrática Estado-Mídias Livres, talvez se devesse apontar as condições reais de que dispõem os “midialivristas” para utilizarem recursos públicos para se encontrarem e promoverem suas políticas. Tomar o resultado por origem do problema não me parece a melhor forma de análise sobre o III FML.
O texto é curioso: ataca a burocracia para burocratizar qualquer processo de constituição das mídias livres. Afirma: “Diante disso, vale a pena problematizar o estado do processo de constituição de “mídias livres” e mais em geral o movimento da “cultura” de resistência à restauração no MinC”. Mas afinal, de que mídia livre e que “cultura de resistência” estão falando?
A mídia livre, no Brasil, tem raízes espalhadas em cada canto onde funciona uma rádio livre ou comunitária sem concessão do Estado, lá onde se estão derrubando sites de prefeitura, onde tem um camelô ganhando o seu… A mídia livre que se constituiu como política pública não contempla 1% das  iniciativas de comunicação livre e compartilhamento de arquivos entre redes em plena operação no Brasil. E, ainda que autogeridas e autônomas, essas iniciativas pairam sobre os planos organizados de demandas enquanto Públic0-Não-Estatal, não havendo necessidade de qualquer tutela “intelectual” sobre o que é ou não a construção do comum para esses coletivos auto-determinados.  Tal como apresentada, a crítica ao modelo de organização de um evento como um Fórum – se baseada em “emails” pontuais vazados, e negando-se à participação em plenária, aberta e democrática – soa desonesta e imatura. O Fórum Mundial de Mídia Livre está previsto para acontecer no Rio e deve sim ter sua organização contaminada com os novos processos e lutas sociais, sem o quê estará se expondo à tomada súbita da palavra pelos que têm algo a dizer, direta e concretamente, sobre a forma que se propõe o evento e sobre o conteúdo do que realmente os coletivos/organizações querem colocar em disputa. Mas isso tudo na ágora, no falar de pronto, sob o impulso de quem se levanta (stand up), não como quem é acordado (wake up)…
O texto segue se propondo a criticar o Fora do Eixo, apresentando um debate já bastante conhecido entre as redes de ativismo anti-capitalista. Sob a máxima “quem tá junto tá junto” a forma “empreendedores 24h” seduz como uma alternativa (liberal) de vida, onde o reconhecimento e o crédito operam como nos velhos esquemas das pirâmides de negócio para acúmulo de poder. Mas até onde alcança a teoria crítica sobre esse tufão revolucionário?
Argumenta-se que  FdE é uma experiência radical de transformação do cotidiano, onde os coletivos organizados e autônomos têm mantido suas próprias residências coletivas, alimentação compartilhada, chegando mesmo a terem sua própria moeda de troca. Um processo aberto e em permanente construção cujo horizonte seria a emancipação e a busca de relações mais humanas entre as pessoas.
O caráter ambíguo do FdE, ao contrário das críticas que lhe são desferidas, pontuaria também uma possibilidade de atuar dentro do sistema capitalista almejando relações alternativas às capitalistas, o que poderia lhe conferir lastro em uma filosofia política da pirataria. Porém, de acordo com o texto, o futuro do “pós-rancor” é despolitizado quando se submete à velocidade mercadológica produtiva, valendo-se relações de exploração de trabalho voluntário para atribuir o que chamarei de identidade/pertencimento à forma dominante de socialidade no FdE. Mesmo autônomos, os coletivos locais reproduzem a mesma habilidade de gestão/improviso típicas da chamada nova cultura capitalista (R. Sennet), adaptando novas hierarquias que facilitam a incorporação desses valores como centrais em suas experiências compartilhadas. Verdadeiros “espertos ao contrário”, diria  Estamira, seu trabalho quer ser adaptado e resistente aos novos negócios capitalistas, mas talvez sujeito às mesmas mazelas de controle e submissão ao sistema produtor de desigualdades.
Em uma entrevista de 2008, Toni Negri afirma:
“quando dizemos que nos encontramos hoje em uma sociedade pós-moderna ou pós-fordista, estamos afirmando algo [bastante] preciso, a saber, que os meios de produção se modificaram, as formas de ação se transformaram, e que é necessário então desviar (détourner) as potências de resistência. Mas a primeira coisa a fazer nessa situação é aceitar essa realidade. Saímos da ilusão segundo a qual seria possível [p.565] modificar o mundo a partir da literatura, da tradição ou das formas sociais antigas. Essas novas formas de resistência, é preciso inventá-las. É preciso então desviar todos os instrumentos dos quais dispomos para esse fim.” (“Entretien avec Ton Negri”, Rev. Critique, 2008, 735-36, p.566).
Assim, ao assumir uma crítica aguda sobre a exploração 2.0, não são apenas as relações de trabalho que se busca revelar, mas todo o complexo subjetivo que mobiliza coletivos e redes à colaboração. Para Negri, o capitalismo produz uma assimetria fundamental que o faz pirata de seus pretensos piratas, e se organiza a partir das formas de resistência que a ele se apresentam, onde a única saída é o desvio, “a compreensão do real”, “quando a potência intelectual se combina com a capacidade de transformação.”  Quando se pergunta sobre as relações de socialidade do FdE a abordagem biopolítica quer sobressair nas análises, sem seguir, porém, os rastros de desvios concretos promovidos localmente em relações sociais dentro de um novo campo produtivo, que não apenas reproduz velhas formas, mas as inventa com as ferramentas de que dispõe.
Eis talvez o sentido deste breve artigo: apontar que a adoção da velocidade “pós-rancor” não se situa apenas em um processo alienador de exploração do trabalho, mas antes provoca também uma nova abordagem epistemológica, revelada em uma junção híbrida composta do humano e da técnica, que produz novos arranjos, escapando às oposições clássicas entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade. Trata-se de tentar dar conta de operar além de um modo de funcionamento da teoria que toma os fatos como dados universais e as ideias sobre estes variantes, como defendido pela antropóloga Marylin Strathern (“I wish to demonstrate how ideias behave”) em seu livro After Nature, de 1992. Quero dizer então de uma crítica ao instrumentalismo sobre a técnica, que separada do humano, lhe surge como fonte de dominação, em uma disposição de poder que poderíamos considerar análoga à capacidade de captura do capitalismo. Assim como precisamos da natureza para sobrepor nossas relações biológicas de parentesco (por mais que avancem a reprodução assistida e o melhoramento genético já em embriões) continuamos vivendo sob a premissa de transmissão de propriedade por laço consanguíeno, oriundo de pai e mãe. Mesmo diante da habilitação a novos desejos com a técnica, sua função permanece teoricamente limitada muitas vezes a abordagens pós-natureza, como sobre um fato em “si”, quando tudo na verdade teria sido em algum momento inventado… O pós é, na verdade, o sempre behind, como se o futuro estivesse sempre ali pronto a ser superado por um novo fato da natureza, uma nova descoberta ou controle sobre uma potência da natureza… é o futuro imaginário que já foi (Barbrook 2009), como os cálculos de extração de petróleo em um mundo de aquecimento global.
Ao teorizar sobre o comum,  “na esteira do marxismo operaísta, da filosofia da diferença e da antropologia canibal, [como]  uma organização política das relações produtivas e materiais” o texto aponta possibilidades, mas não caminhos ou práticas: o comum está no ponto de partida.
Mas, afinal, onde está essa tal “ocupação intensiva do espaço e do tempo”, que afirma o comum como “necessariamente antagonista”?
O comum como prática política, ao contrário, me parece forte se necessariamente ambíguo: não havendo como sabotar o comum, e sempre correndo-se o risco de captura pelo capitalismo, são os piratas os que ainda melhor representam o desvio possível da conduta subjetiva programada para o mercado (o compartilhamento de arquivos protegidos por direitos autorais). Como forma de expressão, utilizam software de criptografia, esteganografia, dando nova forma para a noção de troca, dada a condição abundante de circulação de riquezas imateriais.  A alternativa de um hardware livre e pela banda larga nada operam contra a vigilância dos provedores-delatores, sendo consideradas obsoletas por aqueles que investimos em tecnologias do comum, que permitem a apropriação e comunicação comum: estamos na iminência de decidir sobre a tecnologia de rádio digital que vigorará nos próximos 50 anos e a crítica é after Fórum de Mídia Livre, pós-exploração 2.0.
 
O mediativismo, como nos lembra Bifo, “não propõe um uso alternativo das medias no sentido do conteúdo: trata-se antes de curta-circuitar o meio no nivel de sua estrutura, dentro de seu sistema de funcionamento linguístico, tecnológico, de se atacar aos agenciamentos, às interfaces, de reagenciar e de refinalizar o dispositivo, e não somente o conteúdo que ele produz” (Bifo: original em francês). Ainda que pontuando formas subsumidas ao capitalismo, a exploração 2.0 e comum precisam de uma crítica que, de um ponto de partida comum (a liberdade!) sejam capazes não apenas de produzir “seu conteúdo”, mas agenciar processos e expressões que habilitem a tomada generalizada da palavra, em sintonia com a voz que ecoa cada vez mais nas praças e ruas, aproximando um contingente de desempregados a antigas utopias de igualdade e humanismo, mesmo quando esse não mais possui as mesmas bases teóricas para se produzir como teoria, mesmo que cordeiros ainda não tenham ganhado a força de predar como leões.

 

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